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Muito além da Avenue Foch: a vida de rico de FHC em Paris

11/01/2018





FHC nos arredores da Avenue Foch, em Paris (fotos de Antonio Ribeiro)




Do DCM

Por Kiko Nogueira

Em abril de 2003, a revista Viagem e Turismo, da Editora Abril, publicou uma reportagem sobre um personagem e um lugar que viraram quase sinônimos um do outro: Fernando Henrique Cardoso e Paris.

O ex-presidente falou sobre sua vida na capital francesa, inclusive dando detalhes do apartamento na Avenue Foch, endereço dos ricos e de poderosos como Idi Amin Dada.

Nestes dias em que o triplex do Lula no Guarujá e o sítio em Atibaia causam histeria coletiva, é cada vez mais curioso notar como nenhuma sobrancelha na mídia nunca se levantou por causa do apê.

Eu era redator chefe da VT e encomendei a missão à repórter Flávia Varella. Ela contou como foi a aparição de FHC para a reunião que rendeu a reportagem: “Ele chegou ao almoço num Mercedes, com motorista, vindo da piscina perto de seu apartamento. Tomamos vinho, ele comeu alcachofras de entrada, raia como prato principal e ovos nevados de sobremesa. Nada de gravata, apenas uma camisa esporte sobre o casacão que tirou ao entrar.”

Flávia era mulher de Mario Sergio Conti, ex-diretor de redação da Veja e amigo de Fernando Henrique.

O casal foi morar em Paris depois que Mario foi demitido da revista. Foi em sua gestão que a Veja deu uma nota fraudulenta dizendo que Mírian Dutra, amante de FHC, estava grávida de um “biólogo”.

Na matéria da VT, FHC conta o que depois repetiria em ocasiões diversas: o imóvel era emprestado de sua amiga Maria do Carmo Abreu Sodré, que o herdou do pai, Roberto de Abreu Sodré, ex-governador de São Paulo.

A história dá uma enrolada a partir daí.

Maria do Carmo era casada com o empresário Jovelino Carvalho Mineiro Filho. Nos anos 70, Jovelino fez mestrado na Sorbonne e conheceu Paulo Henrique Cardoso. “O conheci como amigo do Paulo Henrique e nos tornamos grandes amigos”, disse ele sobre FHC.

“Ele assistiu umas aulas minhas na década de 1970, creio”, contou o ex-presidente. “Ele funciona basicamente como líder rural”. É uma definição, na melhor das hipóteses, simplista.

Em 2000, Itamar Franco, então governador de Minas Gerais, mencionou a associação de FHC com Jovelino na fazenda Córrego da Ponte, em Buritis, na Istoé. “Essa fazenda tem algum mistério”, disse Itamar. “Muito complicada essa transação imobiliária. Metade pertence a um homem chamado Jovelino Mineiro e a outra metade pertence aos filhos de Fernando Henrique.”

Jovelino foi acusado de ser grileiro pelo MST no Pontal do Paranapanema, em São Paulo, região repleta de terras devolutas. Em 1995, a Camargo Corrêa construiu um aeródromo particular em Buritis, concluído em menos de 3 meses.

Jovelino era pau pra toda obra. Em 2002, ajudou Fernando Henrique, no final do segundo mandato, a arrecadar fundos para seu instituto. A revista Época publicou um relato de como foi o convescote em Brasília com a presença de executivos das maiores empreiteiras:

“Foi uma noite de gala. Na segunda-feira, o presidente Fernando Henrique Cardoso reuniu 12 dos maiores empresários do país para um jantar no Palácio da Alvorada, regado a vinho francês Château Pavie, de Saint Émilion (US$ 150 a garrafa, nos restaurantes de Brasília). Durante as quase três horas em que saborearam o cardápio preparado pela chef Roberta Sudbrack – ravióli de aspargos, seguido de foie gras, perdiz acompanhada de penne e alcachofra e rabanada de frutas vermelhas –, FHC aproveitou para passar o chapéu. Após uma rápida discussão sobre valores, os 12 comensais do presidente se comprometeram a fazer uma doação conjunta de R$ 7 milhões”.

Mais: ”O dinheiro fará parte de um fundo que financiará palestras, cursos, viagens ao Exterior (sic) do futuro ex-presidente e servirá também para trazer ao Brasil convidados estrangeiros ilustres. Os empresários foram selecionados pelo velho e leal amigo, Jovelino Mineiro, sócio dos filhos do presidente na fazenda de Buritis, em Minas Gerais.”

Em depoimento a Joaquim de Carvalho, no DCM, a jornalista Mirian Dutra afirmou que o apartamento está no nome de Jovelino, mas o dono é seu ex-namorado. “Ele é um operador dele”, diz Mirian.

Jovelino é um laranja ou apenas um sujeito generoso e desapegado? Como anotaria o juiz Moro, evidentemente se referindo a Lula, há aí um “possível envolvimento criminoso”. Possível, que fique bem claro.

 

FHC com Carmo Abreu Sodré e Jovelino Mineiro

 

Eis a Paris de Fernando Henrique Cardoso, o homem cujo apartamento não pertence a ele: 

Por oito anos, Fernando Henrique Cardoso governou um país, morou num palácio e foi servido por dezenas de empregados. Assim que tudo terminou, ele quis férias. E, com todos os recantos do mundo a seu dispor, escolheu aquele em que é obrigado a arrumar a própria cama – “É horrível”, admite –, a levar as camisas para a lavanderia, toma bronca quando deixa a louça suja acumular e não é reconhecido nas ruas.

O ex-presidente do Brasil escolheu Paris. Mesmo com os novos dissabores domésticos que essa opção acarretou, a capital francesa é a cidade do seu coração. “Depois de São Paulo, é onde me sinto mais em casa”, diz ele, que falou de sua paixão a Viagem e Turismo. Em Paris, ele conhece os restaurantes, os museus, os parques, as livrarias e os programas parisienses da moda – e também os endereços tradicionais e os fora do circuito turístico. A familiaridade com a França vem dos tempos de aluno da Universidade de São Paulo, quando vários professores eram franceses; foi aprofundada nos três períodos em que morou em Paris entre os anos 60 e 70; e é atualizada pelos amigos.

“Aqui não sou turista, não me sinto na obrigação de conhecer nada. Por isso, agora que posso, sou um flâneur”, diz. Pelo direito de ser flâneur – segundo o poeta Charles Baudelaire, uma pessoa que passeia sem pressa, abandonando-se às impressões e ao espetáculo do momento –, durante dois meses e meio Fernando Henrique encarou o “exercício de humildade” ao viver num apartamento menor do que seu quarto no Palácio da Alvorada.

Basicamente, o que ele faz em Paris é, como bom ex-professor de sociologia, ler e, como bom político, jantar e almoçar com amigos e personalidades do mundo político. Mas, em seus passeios, também descobre belíssimas atrações (como o Parc de La Villette, um dos preferidos de seus netos). Pode-se dizer que poucos guias conhecem Paris tão bem quanto Fernando Henrique Cardoso.

O ex-presidente da República tem dicas valiosas para se curtir a capital francesa como ele: com paixão e de coração aberto para as novidades. Para comprar livros ou checar as novidades, ele prefere a livraria Fnac de Champs-Elysées. Não é a mais charmosa da cidade e nem é histórica, mas é prática e bem fornida. Para comentar a guerra no Iraque ou murmurar seus receios e esperanças com o governo Lula, sua carta de opções é maior.

Assumido pão-duro, Fernando Henrique freqüenta restaurantes estrelados pelo honorável Guia Michelin, a convite, e bistrôs, quando paga (veja o mapa com os endereços na página 66). O critério, conta, é o da boa comida. Ele torce o nariz, por exemplo, para o festejado Lasserre, “porque é caro demais e não se come, assim, maravilhosamente bem”. Mas anima-se quando fala do ainda mais caro restaurante do chef Guy Savoy, o único entre seus preferidos a ostentar as três estrelas máximas conferidas pelo Michelin.

Na sua lista de recomendáveis, entra o bistrô do chef Michel Rostang, onde o almoço, com entrada, prato e café, custa 27 euros, mas não seu restaurante duas estrelas, que fica ao lado e onde se gastam 150 euros numa refeição. Fernando Henrique vai bastante também ao Giulio Rebellato. Era uma maneira bem mais eficaz de escapar à pia da cozinha do que argumentar com a mulher, Ruth, como fez em algumas ocasiões: “Eu fui presidente do Brasil, morei num palácio. Você acha pouco eu aqui lavando copo?”

A poucos quarteirões de sua casa, o restaurante funcionou como o-italiano-ali-da-esquina nessa temporada de inverno da família Cardoso no seizième arrondissement. O seizième, bairro dos parisienses ricos, não foi uma escolha. O apartamento de frente para a Foch, uma avenida de quatro pistas, ladeadas por jardins, que liga o Arco do Triunfo ao Parque Bois de Boulogne, foi emprestado por sua amiga Maria do Carmo Abreu Sodré, que o herdou do pai, Roberto de Abreu Sodré. Acoplado a um estúdio, ele tem cerca de 100 metros quadrados e mantém a decoração deixada pelo ex-governador paulista.

Fernando Henrique esbarra nos enfeites da casa e sente falta, no bairro, do burburinho dos cafés, brasseries e livrarias do Quartier Latin, região em que morou por mais tempo. Em compensação, o apartamento tem um conforto que o hóspede valoriza: dois banheiros e um lavabo. Fernando Henrique morou pela primeira vez em Parisem 1961, numa casa de estudantes na Cidade Universitária. A Parisdaquele tempo era escura, suja, com os prédios cobertos por uma fuligem negra.

O “brilhantismo” – definição dele – atual da cidade só começou a aparecer nos anos 70. “Eu vi a eclosão do banho na França. As pessoas compravam chuveiros, mas, sem ter onde instalar, os colocavam na cozinha”, conta. Às vezes, ainda no corredor em direção a uma reunião de estudo, ele adivinhava quais eram os colegas presentes pelo cheiro.

Flanar por Paris, para Fernando Henrique, é recordar-se de endereços de amigos, de fatos históricos, de discussões filosóficas. A rue de l’École de Médicine o faz lembrar-se da barricada montada ali em 68, que o impediu de chegar em casa e o obrigou a dormir num hotel. Num dos cafés, ele conversava com o pensador francês Jean-Paul Sartre e sua mulher, Simone de Beauvoir; numa brasserie, com o filósofo Michel Foucault.

Na temporada 2003 – sinal dos tempos –, os grandes mestres foram visitados apenas nos museus. Interessado por artes plásticas desde o tempo em que, ainda jovens, ele e dona Ruth foram monitores do Museu de Arte de São Paulo, o Masp, Fernando Henrique foi às exposições de Modigliani no Museu de Luxembourg, de Magritte na Galeria Nacional de Jeu de Paume e de Picabia no Museu de Arte Moderna da Cidade de Paris. Neste, divertiu-se com um guarda que perguntou em francês: “O senhor é sul-americano? Fernandô?”

Carregado por Ruth, assistiu à peça A Tragédia, de Hamlet, dirigida pelo badalado Peter Brook. Gostou dela e do teatro, que não conhecia. O Théâtre des Bouffes du Nord foi construído no século 19 para ser um teatro popular. Foi ressuscitado em 1974 pela turma de Peter Brook, que manteve sua rusticidade e as marcas do tempo. Outra novidade cultural que entusiasma Fernando Henrique é o Parc de La Villette, com seus jardins e mil e uma atividades.

Andando com os netos pela Cidade das Ciências e das Indústrias, um pavilhão de exposições com recursos ultramodernos que se propõem a explicar praticamente tudo, o vovô ficou boquiaberto com as informações que recebeu sobre DNA e refração da luz. Os conhecimentos adquiridos ali, porém, não foram suficientes para que conseguisse abrir a máquina de lavar num dia em que dona Ruth, em viagem, lhe deu a incumbência de estender a roupa. “Tive de chamar a concièrge, uma vergonha!”, diz.

Máquina de lavar, oito camisas de uma só vez para entregar na lavanderia, o nu de Modigliani, o tiramissu de Giulio Rebellato, o vinho de 300 euros no LaSserre, o foie gras de Guy Savoy, o ácido desoxirribonucleico… Quer flanar por Paris num esquema, digamos, presidencial? Aceite as sugestões de FHC.

 

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FHC com Carmo Abreu Sodré e Jovelino Mineiro

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