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ARTIGOS

Basta de corrupção!

10/01/2017





Por João Feres Jr

Do GGN

Sou velho suficiente para ter vivido sob a Ditadura Militar. Lembro que a primeira vez que ouvi falar de corrupção foi na minha cidade, Marília, eu ainda criança. Todo mundo dizia que o prefeito -- devidamente eleito, pois os milicos não aboliram eleições municipais, a não ser nas capitais -- levava propina das empresas de transporte municipal de passageiros. Mais tarde na vida, já em Campinas, trabalhei em uma empresa que prestava serviço para uma empresa pública do Governo Quércia. As histórias de corrupção que ouvia eram de arrepiar por sua abundância e abrangência. 

Um voo de pássaro sobre a cobertura jornalística da política ao longo da Nova República revela que ela é pontilhada de casos de corrupção, uns mais outros menos explorados pela imprensa. Contudo, nunca antes na história deste país a corrupção havia se tornado assunto tão dominante na cobertura política como agora com a Operação Lava Jato. De fato, somos obrigados a notar que o chamado Mensalão recebeu o epiteto midiático de Maior Escândalo de Corrupção da História do País, mas esse título lhe foi subtraído pela Lava Jato, na narrativa dos mesmos órgãos de imprensa que produziram o primeiro escândalo campeão. 
 
Vejamos o gráfico abaixo com o número de matérias sobre a Lava Jato publicadas somente nas capas e páginas de opinião de Folha, O Globo e Estadão no ano de 2016.  
 
Fonte: Manchetômetro
 

A média em torno de 150 matérias por mês em 2016, ou seja, cinco por dia para os três jornais, ou ainda, quase duas por jornal por dia. Outro dado notável é o pico de aproximadamente 250 matérias em março – quase 3 matérias por dia por jornal em média – justamente o mês que precedeu a aceitação do processo de impeachment no Senado e no qual o ex-presidente Lula foi vítima de uma condução coercitiva a mando da justiça federal do Paraná. É impressionante!

Meu propósito aqui, contudo, não é mostrar que a mídia manipulou a cobertura da política para produzir o impeachment e a perseguição política do ex-presidente Lula, coisa que já mostrei em outras oportunidades. Quero com esse gráfico simplesmente dar uma ideia do massacre midiático sofrido pela opinião pública de nosso país, massacre este que submete a política sistematicamente à narrativa da corrupção.

Não foi a primeira vez na história do Brasil que tal narrativa é usada contra a esquerda ou governos de pendor mais popular. Foi assim nas campanhas movidas pela direita, com suporte midiático amplo, diga-se de passagem, contra Getúlio, Juscelino e Jango. Mas esse dado histórico é na prática um pouco inócuo. A vida humana é breve e as pessoas não têm memória ou conhecimento histórico para notar o movimento estratégico por trás da narrativa da corrupção. Então, a mesma narrativa de tempos em tempos reaparece, mal e mal recauchutada, e é usada novamente com propósitos similares.

Boa parte dos agentes da direita política sabe muito bem que a narrativa da corrupção é pura hipocrisia, eles mesmos escaldados em práticas ilícitas de toda natureza – de grandes empresas a grandes partidos, passando também pela raia miúda de pequenos empresários, burocratas e políticos do baixo clero. Claro, essa narrativa não teria tanto sucesso se não conquistasse, para além destes agentes, uma massa de pessoas das classes médias, estes sim crentes no princípio de que o bom político é o político honesto, e convencidos de que o PT é o maior agente corruptor da história deste país. Essa massa de bestializados, tietes do Moro e de Bolsonaro, posa da “povo” na narrativa da grande imprensa.

Mas o que é mais chocante, incompreensível e desastroso é o fato de que parte da esquerda acaba comprando total ou parcialmente a narrativa da corrupção. Por exemplo, virou moda agora dizer que o PT precisa vir à público fazer uma autocrítica. Acho que têm razão aqueles que apontam para um engessamento burocrático da máquina partidária e para a necessidade de uma revitalização do partido via democracia interna. Mas não é disso que pretende o pessoal da “autocrítica”, mas sim que o partido confesse publicamente estar arrependido por ter praticado atos de corrupção.

Isso não faz qualquer sentido. O partido está sob ataque cerrado e desleal do poder judiciário, do MP e da mídia, acusado de coisas que ou não praticou ou praticou em qualidade e quantidade menor ou comparável a dos outros grandes partidos, sem exceção. Tal mea culpa seria de uma burrice extrema, e quem a defende, uma variedade de coxinha de esquerda, vive realmente em um mundo muito especial, mas que não é esse aqui.

Pior ainda são os colegas de profissão que começam a apontar para o presidencialismo de coalizão como a principal causa da corrupção; como um sistema que fosse estruturalmente corrupto devido ao fato de o presidente necessitar negociar apoio de uma coalisão parlamentar fazendo barganha de cargos. Primeiramente, é preciso dizer que não há qualquer evidência sólida de que hoje haja mais corrupção hoje que no passado, como por exemplo, durante a ditadura, quando não era necessária uma coalisão para sustentar o presidente.

Nem há evidências de que o escândalo da Petrobrás represente um novo patamar nas práticas de corrupção em nosso país. A Petrobrás é um big business e, portanto, a corrupção que nela se praticava tem escala proporcional. Ainda no plano da proporção, não estou convencido que ela fosse menor, por exemplo, na prefeitura de Marília ou no Governo Quércia, para citar dois exemplos singelos do começo deste texto. Por fim, é só dar uma passada de olhos no livro Privataria Tucana para constatar que suspeitas de esquemas bilionários de corrupção precedem a Lava Jato.

Não quero entrar aqui em detalhes da evolução do presidencialismo de coalisão em nosso país. Quero sim chamar atenção para o fato de que o problema central de qualquer sistema de governo democrático, incluindo o nosso, é o poder político do dinheiro. Essa é propriamente a corrupção da política, pelo menos no sentido que a antiguidade clássica emprestava ao termo. Assim, o grande problema não é fulano ou sicrano aceitarem propina para fraudar essa ou aquela concorrência. Claro, tal prática é criminosa e merece devida sanção legal. O grande problema é a desigualdade política gerada, por exemplo, por regras que permitem financiamento desigual de campanhas, que restringem o poder do voto popular ou o acesso à comunicação com os eleitores, ou.

O encarecimento das campanhas políticas ao longo dos últimos anos é fato, e é também altamente prejudicial à democracia, pois torna os candidatos mais dependentes dos interesses econômicos que os apoiam. Restringimos o financiamento empresarial de campanha, o que parecia ser bom, mas ao mesmo tempo isso abriu um flanco para aumentar a força política dos políticos evangélicos, dotados de máquinas formidáveis de arrecadação pulverizada.

Medidas que restringem o poder do voto popular, como o sistema semi-parlamentarisma, o voto distrital, entre outras, são também formas de corromper a democracia pois aumentam relativamente o poder do capital. Adotá-las seria enorme retrocesso. Não podemos nos esquecer que o grande capital sempre tem canais para se comunicar com o poder político, quem os tem de maneira bem mais limitada é o cidadão comum.

Por fim, o acesso à comunicação entre representantes e eleitorado é fundamental para a saúde política de qualquer democracia. Enquanto tivermos este sistema oligopolizado e reacionário de mídia teremos um problema seríssimo. A grande mídia manipula a opinião em prol dos interesses das próprias empresas proprietárias e dos grupos econômicos aos quais são aliadas. A grande mídia é um agente principal da corrupção da política em nosso país, mas isso não entra na narrativa da corrupção que ela inculca nos seus consumidores, por razões óbvias.

Basta de corrupção! Não podemos ser ingênuos de comprar a narrativa da corrupção da mídia e não perceber que ela é um mero instrumento na sua luta política contra a esquerda. É preciso parar com essa culpa e essa necessidade de expiação e partir para a ação contra os reais inimigos de democracia.

Basta de corrupção! Se formos atentar para a verdadeira corrupção da política, veremos que a grande mídia é um dos seus principais agentes. O caráter democrático de nosso sistema político só pode ser garantido no médio prazo se assistirmos ao desmonte do oligopólio sobre a comunicação em nosso país. É por isso que a esquerda folhosofal é parte do problema e não da solução. Prestem bem atenção em suas análises, elas sempre dão um jeito de omitir quaisquer críticas aos meios de comunicação que lhes emprestam cartaz.  



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