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Briga entre Temer e Renan acirra desconfiança sobre cisões na base aliada

05/12/2016





Por Hilda Cavalcanti

Da Rede Brasil Atual

Eles começaram o ano de 2016 estremecidos, chegaram a travar uma disputa interna pelo comando do PMDB, voltaram a se unir e, desde então, vivem sendo alvo de notícias sobre articulações de um contra o outro. Mas como as divergências e manobras em separado descobertas entre os presidentes da República, Michel Temer, e do Congresso, Renan Calheiros (PMDB-AL), passaram a ser mais fortes, políticos da oposição e base aliada se perguntam, agora, até que ponto o grupo que chegou ao poder após o impeachment de Dilma Rousseff está realmente unido e até que ponto está desarticulado.

E mais: tentam descobrir qual o tamanho real da participação dos integrantes do PSDB nisso tudo. Esta é a principal discussão que deve monopolizar reuniões de bancadas e conversas de bastidores na Câmara e no Senado, a partir desta semana.

Em primeiro lugar, porque a situação de Renan não está fácil depois que o Supremo Tribunal Federal (STF) o transformou em réu em uma ação penal, na última semana, e por ter acumuladas, além deste processo, outras 11 investigações com pedidos para abertura de processos contra ele. Em segundo lugar, devido ao anúncio escancarado feito pelo presidente Michel Temer no jornal O Globo confirmando que recebeu um pedido da presidenta do STF, ministra Cármen Lúcia, para que atuasse como interlocutor junto a Renan no sentido de fazer com que o projeto que criminaliza abuso de autoridade tivesse votação adiada no senado.

O senador não aceitou recuar. O presidente da República, com o argumento de que “não faz parte do seu temperamento” interferir de forma mais intensa junto ao Congresso, ficou quieto num primeiro momento, para depois divulgar tudo quando as manifestações que tomaram as ruas do país pediram, justamente, mais apoio nas medidas de combate à corrupção e transformaram Renan Calheiros num dos alvos principais dos protestos.

O presidente do Congresso ficou de se reunir com os líderes partidários do Senado na manhã desta terça-feira (6) para definir os itens prioritários da pauta da semana. Ele ainda não se pronunciou a respeito, mas saiu de Brasília na sexta-feira anunciando que votaria o projeto sobre abuso de autoridade rapidamente. Aliados já falam em tentar demovê-lo da ideia e consideram que ficou clara uma articulação de Temer no sentido de colocar Renan no epicentro da fogueira. E, ao colocá-lo nessa fogueira, tentar se livrar um pouco da crise política dos últimos dias.

“É uma briga de gigantes, mas Temer precisa mostrar toda a sua habilidade política para sair vitorioso se quiser partir para o confronto, porque Renan tem talento: demora para se exasperar, mede bem seus atos, tem carisma junto aos parlamentares e, apesar do baque com a decisão do STF, não se pode dizer que seja um leão caído”, avaliou um senador peemedebista ligado ao presidente do Senado.

Os motivos de Temer para encontrar um novo foco para as manchetes dos jornais passaram pela saída do então secretário de governo, ministro Geddel Vieira Lima, do cargo, por ter tentado usar a função que ocupava para proveito privado. Também, pelo pedido de impeachment contra ele (Temer) protocolado pelo Psol por ter atuado em favor de Geddel, por outros pedidos que devem ser protocolados nos próximos dias com o mesmo objetivo e, para completar, os comunicados de entidades do mercado financeiro de que não estão satisfeitas com a atuação do Executivo nas medidas para equilibrar a economia do país.

Medidas macroeconômicas

O recado passado por vários empresários no final de semana foi de que consideraram pequena a última  redução das taxas de juros e querem medidas mais fortes, daqui por diante. Temer promete divulgar um pacote com dez medidas macroeconômicas nos próximos dias, até mesmo como forma de preservar o seu ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que teve a cabeça colocada a prêmio por nove parlamentares.

Desses, pediram a saída de Meirelles, além do próprio Renan Calheiros, o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara, e os senadores Romero Jucá (PMDB-RR), Eunício Oliveira (PMDB-CE), Aécio Neves (PSDB-MG), Tasso Jereissati (PSDB-CE), José Aníbal (PSDB-SP), Ricardo Ferraço (PSDB-ES) e Armando Monteiro (PTB-PE).

Um dos fatores considerados determinantes para levar a esse clima de animosidade foi a sugestão feita por Renan, logo após a saída de Geddel e sem ter comunicado ao Palácio do Planalto, que a vaga deveria ser ocupada por um político do PSDB. Embora nos últimos dias tenha sido maior o movimento de parlamentares tucanos para almoços e jantares com o presidente da República no Palácio do Jaburu, ainda não ficou totalmente esclarecido se houve algo de caráter partidário nas declarações feitas pelo ex-ministro da Cultura Marcelo Calero, que é ligado a nomes do PSDB e já integrou a sigla, a Geddel Vieira Lima.

Até porque Calero deu depoimento sobre o caso à Polícia Federal. O vazamento de suas palavras, poucas horas depois, causou grande incômodo no Palácio do Planalto e aumentou os pedidos pela saída do titular do Ministério da Justiça, Alexandre de Moraes, que também é do PSDB. Oficialmente, Temer descartou a saída de Moraes e minimizou qualquer atrito. Em reservado, segundo pessoas próximas, demonstrou contrariedade.

“O que existe é muita teoria da conspiração nisso tudo. O momento é de pensarmos no país, não de nos esmiuçarmos em itens pequenos que aumentam a crise. O governo segue unido e com o apoio dos que se reuniram para formá-lo desde que o presidente Michel Temer assumiu”, justificou-se o atual líder do governo no Congresso, Romero Jucá, tentando desfazer qualquer mal estar.

Renan, entretanto, disse que o presidente da República “deve considerar ampliar o papel do PSDB no governo”. “Não podemos apequenar essa discussão. Prefiro um governo com influência pelo PSDB do que influenciado pelo Eduardo Cunha. Se fizermos isso, teremos mais condições de cuidar do ajuste e priorizar uma pauta que seja eficaz na retomada do crescimento da economia”, afirmou.

Os tucanos pouco comentaram a respeito. Fontes do Palácio do Planalto destacaram que a declaração não foi bem quista. E enquanto os oposicionistas falam em “golpe do golpe”, “período cada vez mais difícil para o governo”, “articulação do PSDB para chegar à presidência nos próximos meses”, pouco se comenta sobre a situação de fato de Renan Calheiros, elogiado como “homem de consensos” ou como “político carismático” até por nomes como o líder das minorias, Lindbergh Farias (PT-RJ). “Renan é muito envolvente, não há como negar”, afirmou ele durante o período de votação do impeachment de Dilma Rousseff.

Ajuda a dois lados

Enquanto todos estes itens tendem a ser melhor avaliados e até levar a redefinições na base aliada, parlamentares da situação e da oposição costumam lembrar de um fator considerado relevante para levar Temer ao poder e, ao mesmo tempo, para agradar aos petistas. O de que foi Renan Calheiros quem atuou, e votou, pelo impeachment da ex-presidenta e também, no mesmo dia, interferiu com toda a força de que dispunha para aprovar a emenda que manteve os direitos políticos de Dilma.

Agora, enquanto atua nessa guerra de bastidores com Temer e tenta fragilizar autoridades que trabalham nas investigações sobre corrupção de políticos, Renan continua sob o comando da Casa que tem a missão de votar as medidas de ajuste fiscal tão desejadas pelo Executivo.

Para o líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE), tudo o que está sendo observado é fruto do desequilíbrio do governo. Costa disse ver pouca possibilidade de Temer conseguir durar no cargo até 2018. “O fato de ele não ter a legitimidade das urnas, somado à incompetência de sua equipe econômica, além dos seguidos escândalos da gestão peemedebista, ameaçam a sua permanência. O que estamos vendo é um governo que tenta se equilibrar num pé só e vê sua base se corroer. É um governo que desde que assumiu, estava fadado a fracassar”, disse.

Da mesma forma, o deputado Paulo Pimenta (PT-RS) é da opinião que, além da perda de apoio na base parlamentar, o governo se vê “mergulhado” em denúncias de corrupção, e ainda não consegue oferecer o que chamou de “resposta satisfatória do ponto de vista da política econômica”.

“É um governo que perde base, aprofunda o esquema de corrupção e que não tem resposta econômica. Mas vai ser empurrado até dezembro, para gerar o 'golpe no golpe' a partir de janeiro. Está fadado a um fim próximo e só não foi derrubado ainda porque há articulações poderosas por trás”, afirmou. Segundo Pimenta, “se hoje os segmentos interessados quisessem se movimentar, já teriam voto no Congresso para cassar o Temer”.



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