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O papa e os movimentos populares: olhar o mundo a partir de baixo

25/10/2021



  • Papa Francisco: "Não estamos condenados a repetir ou a construir um futuro baseado na exclusão e na desigualdade" - ALBERTO PIZZOLI/AFP



 

Brasil de Fato

Por causa das restrições sanitárias, o IV Encontro Mundial dos Movimentos Populares (IV EMMP) com o papa Francisco teve dois momentos ou etapas: em julho foi uma reunião de trabalho dos movimentos populares das Américas. Ali se discutiu o impacto da covid-19 sobre os trabalhadores sem direitos e descartados, assim como os dilemas que a humanidade enfrenta hoje, incluindo os 3Ts: terra, teto e trabalho, os três "direitos sagrados" que moldaram os diálogos com o papa Francisco nos três encontros anteriores (Vaticano, 2014 e 2016; Santa Cruz de la Sierra, 2015). No dia 16 de outubro, na segunda etapa, representantes dos movimentos populares entregaram ao papa um manifesto com suas preocupações e anseios. E o papa divulgou sua carta aos movimentos populares.

Nesta mensagem, o papa volta a chamar esses irmãos e irmãs de “poetas sociais” e explica: “Gosto de chamar vocês assim de poetas sociais porque vocês têm a capacidade e a coragem de criar esperança onde só aparecem o descarte e a exclusão. Poesia significa criatividade, e vocês criam esperança. Com as mãos, vocês sabem como forjar a dignidade de cada pessoa, das famílias, e da sociedade como um todo, com terra, casa e trabalho, cuidados e comunidade. A dedicação de vocês é, sobretudo, proclamação de esperança. Vocês me lembram que não estamos condenados a repetir ou a construir um futuro baseado na exclusão e na desigualdade, no descarte ou na indiferença; onde a cultura do privilégio é um poder invisível e irreprimível e a exploração e o abuso são um método habitual de sobrevivência. Não! Vocês sabem muito bem como anunciar isto. Obrigado!”.

Em sua mensagem, o papa reflete que a pandemia serviu de pretexto para que a sociedade dominante pudesse agravar as desigualdades sociais e denuncia o aumento da fome e da insegurança alimentar para milhões de pessoas em todo o mundo. Conclui que a fome mata mais do que a pandemia. Agradece aos movimentos populares o fortalecimento de uma cultura da solidariedade e da partilha. Repete que não basta a mudança pessoal para mudar o mundo. É preciso transformar as estruturas socioeconômicas para que tomem um rosto humano. Pede então que os grandes laboratórios liberem as patentes e toda a humanidade tenha acesso gratuito às vacinas. Retoma o pedido de perdão da dívida dos países empobrecidos, que se ponha fim à corrida e competição armamentista e os países repensem o seu caminho social e econômico a partir da sustentabilidade e do cuidado com a mãe Terra.


Papa Francisco: "Irmãs e irmãos, estou convencido de que o mundo se vê mais claramente a partir das periferias. Sigam impulsionando sua agenda de terra, teto e trabalho" / Reprodução / Vatican News

Depois de pedir insistentemente o fim dos discursos populistas de intolerância, discriminações sociais e raciais e contra os pobres, o papa convida os movimentos populares a sonhar: “Precisamos de usar essa faculdade mais excelente do ser humano que é a imaginação, aquele lugar onde a inteligência, a intuição, a experiência e a memória histórica se encontram para criar, compor, aventurar e arriscar. Sonhemos juntos, porque foram precisamente os sonhos de liberdade, igualdade, justiça e dignidade, os sonhos de fraternidade que melhoraram o mundo. E estou convencido de que através destes sonhos passa o sonho de Deus para todos nós, que somos seus filhos. Sonhemos juntos, sonhemos entre nós, sonhemos com os outros. Sabei que sois chamados a participar nos grandes processos de mudança, como vos disse na Bolívia: «O futuro da humanidade está, em grande medida, nas vossas mãos, na vossa capacidade de vos organizar e promover alternativas criativas»” (Discurso aos movimentos populares , Santa Cruz de la Sierra, 9 de julho de 2015).

Depois de fazer referência aos ensinamentos sociais da Igreja, o papa propõe que olhemos o mundo a partir das periferias e insiste que isso significa pensar o futuro a partir da participação ativa e cidadã de todas as pessoas e grupos atualmente excluídos pelo sistema dominante. E conclui que esse é o sonho de Deus e deve ser o nosso sonho a ser realizado.

*Marcelo Barros é beneditino, pernambucano e de convicções inter-religiosas.

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Vivian Virissimo


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