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ARTIGOS

Polícia sem partido

09/09/2016





Do Jornal GGN

Em seu artigo de hoje, na Folha, Vladimir Safatle vai longe. Vai até o golpe militar no Brasil, onde suicídio ajoelhado, como quiseram fazer crer sobre morte de Herzog, era coisa que queriam nos empurrar garganta abaixo para explicar o inexplicável, o inaceitável. Curiosamente, o artigo carrega dois títulos: um no jornal físico e outro na internet. Um explica claramente a que veio, veio pedir "Polícia sem partido", que não desça o sarrafo em quem não concorda com o governo, já que sua função é massacrar as vozes dissonantes ao poder estabelecido. Na internet, o título passa a ser "A arma mais forte será ampliar a não cooperação com o governo". O título está bem mais controlado, não dá a dimensão do artigo.

Safatle critica a polícia partidária que mata jovens e os governadores alinhados batem palmas. Critica a Folha por ter feito aquele cansativo editorial pedindo firmeza com os "fascistas", manifestantes que ousavam sair às ruas e gritar palavras de ordem em frente ao jornal. Critica ainda esta capacidade de se indignar com uma lixeira incendiada e uma janela quebrada, e não ter uma palavra contra a jovem que perdeu o olho com bala de borracha da polícia partidária. 

O mundo virou de ponta cabeça. Ele relembra aos esqucidos que infiltração é a arma mais velha da humanidade, e se não conseguem perceber que black blocs é fruto desta tática, não entendem mais nada de democracia. Aponta a provocação da polícia política como um fardo para a democracia e que sua função atualmente é provocar a desordem, criar imagens de terror para minar o movimento contrário ao governo que aí está. E, por fim, entende que, aí sim, a arma mais forte será ampliar a não cooperação com o governo e, caso estejamos realmente interessados na não violência, devemos fazer uma crítica implacável da violência perpetrada pela policia com suas táticas primárias de provocação.

Por Vladimir Safatle

Da Folha

Cada época tem sua imagem. Há momentos nos quais a essência de tempos históricos determinados encontra sua figura sensível. A ditadura militar teve, por exemplo, a figuração precisa de sua barbárie bruta na foto de Vladimir Herzog enforcado em uma cela, com os joelhos dobrados quase no chão. Demonstrava-se, de forma grotesca, o descaso com qualquer princípio elementar de verossimilhança. Isto é essência mesma de um estado policial: um regime no qual você deve acreditar que alguém morreu enforcado, mesmo que sua foto demonstre exatamente o contrário.

Desde então alguns dizem que o país mudou, mas certamente não para a polícia militar. Ela continua agindo como se devêssemos acreditar que pessoas se enforcam com o joelho dobrado no chão. Não é por acaso que, segundo estudos da socióloga norte-americana Kathryn Sikkink, o Brasil é o único país na América Latina no qual tortura-se mais hoje do que na época da ditadura militar. É porque aqui a imprensa e a classe política dão carta branca para a polícia agir da maneira como convier na defesa dos interesses do seu partido. Sim, não se enganem pois a polícia tem partido. Enquanto o sr. Alexandre Frota e o coral gospel "Jesus ama Ustra e seus amigos" entoam o hino Escola sem Partido, alguém deveria começar por exigir uma Polícia sem partido.

Desde os tempos mais remotos da humanidade, a tática da provocação e da infiltração é utilizada para desqualificar quem contesta o poder. Foi assim em Roma, na Babilônia e nas manifestações de 2013. Vimos inúmeras vezes em que a polícia provocava, jogando bombas em manifestações até então pacíficas, infiltrando-se, atirando a esmo. Ou seja, a função da polícia brasileira não era garantir a ordem, mas produzir e gerenciar a desordem. Produzir imagens de terror para minar o apoio popular às manifestações. Enquanto isto, o Ministério Público, especialmente o de São Paulo, nem cogitava agir a fim de enquadrar o uso da força do braço armado do Estado. O que não era de se estranhar, já que o governador do nosso cafezal, assim como outros governadores pelo país, aplaudiam enquanto seus soldados matavam oito manifestantes, feriam 837 e prendiam 2.608 só em 2013 (dados da ONG Artigo 19). Em outros lugares do mundo, isto seria descrito como uma carnificina. No Brasil, é defesa da ordem.

Então vieram as manifestações pelo impeachment e o milagre aconteceu: uma polícia ordeira, catracas abertas para manifestantes passarem gratuitamente, confraternização entre a polícia e as senhoras com sua nostalgia por "intervenção militar". Em troca a PM fazia o milagre da multiplicação e anunciava ter 500 mil manifestantes em um espaço no qual só cabiam 200 mil. Mas como lembra a foto de Herzog, verossimilhança não é o forte da corporação.

Agora, 62% da população quer que o sr. Michel Miguel devolva ao povo o cargo que ele usurpou e convoque eleições gerais. As ruas voltaram a se encher e a polícia voltou a mostrar qual é o seu partido. Domingo, São Paulo foi palco de uma enorme manifestação, sem patrocínio da mídia e com proibição do governo de São Paulo. Como tudo ia bem, a polícia precisava produzir sua desordem, fornecer imagens de caos. Assim, bloqueia-se previamente novas adesões da população.

Michel Miguel, ao tomar de assalto a república, prometeu ao país a "pacificação". Na sua novilíngua isto significa: bomba, bala e "cadeia preventiva". A imprensa pode, pela enésima vez, insuflar o espantalho dos black blocs e auxiliar o governo em sua luta desesperada por não cair. Mesmo esta Folha publicou um editorial no qual eles eram comparados a fascistas exatamente um dia depois da estudante Deborah Fabri ter perdido um olho por ação da polícia. Não houve o mesmo tom de indignação com o segundo fato, nem com o fato de um tenente-coronel ter descrito essa violência inaceitável com um singelo: "quem planta rabanete, colhe rabanete".

Prefiro não acreditar que alguém entenda que vidraças de bancos e lixeiras sejam mais importantes do que a integridade física de nossos cidadãos. Por outro lado, que fique claro: a arma mais forte atualmente será ampliar as formas de não cooperação com o governo e de não violência. A violência black bloc só serve para fortalecer o estado atual das coisas. Mas se estivermos realmente interessados em não violência a primeira coisa a fazer é ter uma crítica implacável da violência da polícia, de suas práticas primárias de provocação e de seu comprometimento político-partidário.

Wladimir Saflate é professor livre­docente do Departamento de filosofia da Universidade de São Paulo (USP)



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