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ARTIGOS

Precarização, face perversa do trabalho no mundo

13/01/2017





Por Maizé Trindade

Do GGN

O capitalismo mundializou-se, estendendo-se a territórios do Leste Europeu e Ásia. Se nos primeiros estágios da revolução industrial, a fragmentação do trabalho foi a característica principal, no atual estágio, além da super-fragmentação, o trabalho sujeita-se à dispersão geográfica. É preciso buscá-lo pelo mundo afora e submeter-se às mais severas condições.

É o que acontece com indianos, paquistaneses, filipinos e trabalhadores de outras nacionalidades que migram para Dubai para engrossar a subclasse ou os estratos mais baixos dos despossuídos. Privados de oportunidades em seus países de origem e seduzidos – qual o herói grego Ulisses – pelo canto de ganhos substanciais em outras terras, tais trabalhadores lançam-se numa aventura incerta. O exército de “disponíveis” atinge dimensões mundiais, mesclando raças, idades, sexos, religiões, tradições, reivindicações, lutas, expectativas e ilusões.

Essa reserva de força de trabalho é praticamente inexaurível, já que o capital pode mobilizar várias centenas de milhões de trabalhadores potenciais, especialmente na Ásia, África e América Latina. Os expatriados recriam diversidades e alimentam desigualdades. Estranhos no país-padrasto, sofrem preconceitos de base racial, religiosa, lingüística, de sexo e idade.

O texto abaixo é resultado da minha segunda viagem a Dubai e da convivência com uma jovem imigrante expatriada do Sri Lanka:

Chandrasekhara Mudiyanselage Reshmika Ananji Chandrasekara é seu nome completo. Ou, simplesmente, Reshi, nome pelo qual a conheci em Dubai. Reshi é uma jovem de apenas 27 anos, cuja história de vida é tão longa e complexa quanto seu nome. Em 2007, aos 19 anos, casou-se com Danushka, percussionista de uma banda de música, na cidade de Colombo, capital do Sri Lanka. Aos 20, grávida de sete meses, perdeu o marido num acidente de moto. Dois meses depois, nasceu sua filha, Padara, que, hoje, aos sete anos, vive com os avós, longe da mãe, no Sri Lanka.

Há três anos, Reshi abdicou da convivência com a filha Padara, em busca de trabalho. Primeiro, foi para o Chipre, onde trabalhou, em regime de semiescravidão, por mais de dois anos. No primeiro emprego, trabalhava das cinco da manhã às dez da noite, para ganhar 300 euros (cerca de 1.200 reais). Não tinha dia de folga, nem direito a comida ou qualquer garantia previdenciária ou de saúde. No segundo, tornou-se cuidadora de uma senhora de 94 anos, a Grandma. Lá, usufruía de folga semanal e alimentação. Ganhava 350 euros para trabalhar doze horas por dia. Com a Grandma, aprendeu grego e um pouco de inglês. Em 2015, após o falecimento da Grandma, Reshi retornou ao Sri Lanka, onde casou-se pela segunda vez. Um ano depois, aventurou-se com o marido, em busca de oportunidade de trabalho em Dubai, nos Emirados Árabes, renunciando, mais uma vez, à convivência com a filha.

Foi lá, em Dubai, que nossas histórias se cruzaram. Desde minha viagem anterior àquela cidade, já me sensibilizara com as condições de trabalho dos operários da construção civil e suas jornadas de doze horas diárias, cumpridas sob sol escaldante e temperaturas que, no verão, beiram 50 graus. Entretanto, não tive oportunidade de falar com nenhum deles. Desta vez, estava lá para conhecer minha primeira neta e Reshi era a pessoa contratada para cuidar dela. Durante trinta dias convivemos, diariamente. Eu tinha muitas perguntas e Reshi era econômica nas respostas. Mas, aos poucos, tornamo-nos próximas e sua história foi se revelando.

Dubai, paraíso do neoliberalismo

A entrada na aeronave Boeing 777-300ER da Emirates Air Lines é a senha para conhecer a “experiência Emirates de voar". Principal empresa aérea dos Emirados Árabes Unidos, a companhia tem serviço de bordo impecável, mesmo para os que, como eu, viajam na classe turística. Sua base é o Aeroporto Internacional de Dubai, onde dispõe de terminal exclusivo de onde partem seus mais de 1.500 voos, a cada semana, rumo a 80 países, nos seis continentes. A Emirates é uma gigante do ar, considerada uma das dez melhores do mundo. Transporta milhares de passageiros. Muitos empresários e turistas. Para estes, Dubai é o paraíso. Oferece luxo, opulência, consumo e entretenimento. Uma cidade efervescente, cuja paisagem muda rapidamente. São construções grandiosas que brotam, a cada dia, do seu chão árido. Estima-se que um terço das gruas do mundo erguem-se, qual gafanhotos imensos, na sua paisagem desértica.

Mas a Emirates também transporta um contigente considerável de imigrantes despossuídos. A maioria de países do sul da Ásia como Índia, Filipinas, Paquistão e Bangladesh, que buscam oportunidade de emprego, na capital do Emirado. Muitos se desfazem de tudo que têm para bancar os quatro mil dólares, exigidos pelos agentes recrutadores, pelo visto de trabalho e as despesas da viagem. Uma vez endividados, tornam-se reféns dos agentes e precisam pagar as dívidas contraídas antes da viagem, caso desejem retornar aos países de origem.

Trata-se de voo cego, sem garantias. Chegam para engrossar o contingente de imigrantes desqualificados(1), universo de explorados que constrói a opulência de Dubai. Logo na chegada, são enviados para “campos de trabalhadores”(2) onde dividem espaço mínimo, sem janelas, com até nove pessoas e pelo qual pagam até 80 dólares mensais. Amontoados em beliches, dividem cozinhas e banheiros públicos sem qualquer higiene.

Seu passaporte é confiscado, na entrada, pelo administrador do campo. O sistema “kalafa” - prática legal rotineira de escravidão moderna que garante aos empregadores confiscar os passaportes dos trabalhadores - impede que os imigrantes mudem de emprego ou saiam do país sem permissão dos contratantes. Assim, tornam-se reféns dos agenciadores. Descobrem, tardiamente, que a promessa de dinheiro é uma ilusão. Submetem-se a jornadas de 12 horas diárias, seis dias por semana, em condições extremas. Aceitam ganhar cerca de 300 dólares, sem qualquer direito trabalhista. Extraídas as despesas com estadia e comida, sobra quase nada. Terminam trabalhando para custear a própria subsistência.

A situação das imigrantes mulheres é igualmente difícil, com o agravante de que são segmento ainda mais desprestigiado, no país muçulmano. A maioria executa trabalhos domésticos e recebe cerca de 200 dólares, por jornada de 12 horas. Algumas residem na casa dos patrões e costumam estar disponíveis por até 16 horas. São desprovidas de qualquer predicado, identidade ou vínculo. Sujeitas a maus tratos, não têm a quem recorrer para pedir ajuda(3). São mulheres que, como Reshi, renunciaram à convivência com os próprios filhos para cuidar dos filhos de outros. Entretanto, diferentemente de Reshi, não dispõem de férias e descanso semanal remunerados, plano de saúde e tratamento humano e igualitário.

Neste janeiro, Reshi fará 28 anos. Quando nos despedimos, após 30 dias de convivência, já não éramos as mesmas. Estávamos ambas, humanamente, afetadas pela intimidade do convívio. A ela, sob cujos cuidados minha neta, Alice, está entregue, devo a inspiração e o compromisso de denunciar a situação de precariedade a que muitos trabalhadores continuam sujeitos no mundo. A você, Chandrasekhara Mudiyanselage Reshmika Ananji Chandrasekhara, dedico este texto. É meu presente de aniversário.

(1) Segundo relatório da Human Rights Watch, de 2015, os trabalhadores imigrantes constituem cerca de 90 por cento da força de trabalho dos Emirados Árabes Unidos. A grande maioria é constituída de operários da construção civil e de trabalhadores domésticos.

(2) Os campos de trabalhadores são afastados dos locais onde turistas e visitantes fazem compras e buscam entretenimento. O maior desses campos, o de Sonapur - cidadedormitório, a 30 km de downtown - concentra mais de 150 mil trabalhadores.

(3) Em Dubai, o liberalismo prevalece. Tudo é privatizado. Inexistem serviços públicos ou garantias básicas como SUS, FGTS, aposentadoria ou seguro-desemprego. Tais vantagens são miragem na árida paisagem de Dubai. A precarização do trabalho doméstico inicia-se com o desmonte dos direitos trabalhistas, solapando garantias das mulheres trabalhadoras, lado mais frágil do conflito.

 



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