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SINDICATO DOS SERVIDORES PÚBLICOS FEDERAIS NO ESTADO DE PERNAMBUCO
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Publicado: 03/03/2026
Por Yuri Ferreira de Assis
A escalada da violência contra as mulheres, nos últimos anos, coloca em evidência a centralidade da misoginia na organização da vida social dos homens brasileiros.
A misoginia é o ódio contra as mulheres e a raiz de uma sociedade em que os homens são valorizados e as mulheres são vistas como pessoas inferiores e subordinadas a eles. O resultado é a violência: humilhação, objetificação, assédio moral e sexual, agressões físicas, estupro, feminicídio...
Durante séculos, as mulheres estiveram sob o controle de uma sociedade patriarcal. Eram tratadas como propriedades e compradas como dotes. Não podiam aprender a ler e escrever, a votar e escolher com quem casar. Também não podiam se separar de seus maridos. Não era permitido que elas dessem opiniões, entrassem para o mercado de trabalho, escolhessem as suas próprias roupas e usassem maquiagem. Não deviam tomar as rédeas de suas próprias vidas.
As mulheres eram objetificadas e usadas para a prática do sexo, geralmente com o propósito de gerar herdeiros, e para cuidar do lar. Com o passar do tempo, muitas começaram a se reunir em movimentos feministas e conquistaram avanços importantes. Entraram no mercado de trabalho e começaram a se emancipar financeiramente.
Mas, em grande parte dos casos, passaram a ter uma jornada dupla ou tripla de trabalho, uma vez que continuaram como as maiores responsáveis pelos afazeres domésticos e pela criação de suas filhas e filhos. Não é à toa que elas, ainda hoje, são as piores prejudicadas com a escala de trabalho 6X1. Uma das bandeiras de luta do próximo dia 08 de março – Dia Internacional da Mulher - é o fim desta escala de trabalho.
Algumas décadas depois, com o crescimento do movimento feminista em todo o mundo, grupos de mulheres brasileiras foram formados para debater assuntos diversos como o voto feminino. Elas passaram a estudar, ingressaram em universidades, se prepararam para o mercado de trabalho, resolveram suas questões emocionais por meio dos mais diversos tipos de terapias, conquistaram direitos e, muitas, se tornaram independentes financeira e emocionalmente dos homens.
Um abismo cultural
E os homens? Os homens assistiram a essa emancipação e autonomia feminina assustados e acomodados em seus privilégios. Acomodados em sua mesmice violenta infanto-juvenil. Conformados em viver uma competição eterna e permanente para ver quem seria o melhor entre eles, casados ou não, em se tratando de conquistar o próximo campeonato de futebol (indiretamente), ingerir a maior quantidade de álcool (ou drogas) e conquistar o maior número possível de mulheres. O tripé da felicidade masculina brasileira.
É claro que essa conta não poderia fechar. As mulheres se tornaram cada vez mais sábias e os homens estagnaram e permaneceram tacanhos. E por ainda estarmos vivendo em uma sociedade patriarcal, são esses valores tacanhos masculinos que são passados para nossas filhas e filhos. Menina ainda é criada para casar e menino para namorar! Não é à toa que ainda temos muitos adolescentes e jovens conservadores no Brasil – grande parte recebendo influência por meio da internet que tem servido como catalisadora de discursos e práticas anti femininas.
Mas as meninas não querem mais casar. Ou se querem, não com qualquer um. Entretanto, a grande maioria dos homens deste país está na mesmice do "qualquer um".
Hoje, as mulheres não são mais obrigadas a terem filhas e filhos. Não são mais objeto de uso. Tomam suas próprias decisões. Muitas fazem o que querem e usam as roupas que elas mesmas compram. Em 1960, as mulheres brasileiras tinham uma média de 6,3 filhas ou filhos. Hoje, esse número é de apenas 1,5 por mulher. Além disso, 68% das mulheres brasileiras concordam que não precisam ter filhos para se sentirem realizadas.
Em 1960, a mulher estudava, em média, 1,9 anos. Hoje, elas estudam uma média de 10,5 anos. Mais que os homens. Hoje, 97% das mulheres acreditam que elas devem trabalhar para ter o próprio dinheiro e metade dos lares brasileiros já têm a mulher como principal fonte de renda.
Está sendo criado um abismo entre as mulheres e os homens no Brasil. E a reação desses homens a todos esses avanços tem sido a violência. Em 2025, o Brasil registrou 6.904 vítimas de casos consumados e tentados de feminicídio. Este número representa um aumento de 34% em relação ao ano de 2024, quando houve 5.150 vítimas. Foram 4.755 tentativas e 2.149 assassinatos, totalizando quase seis mulheres mortas por dia no país.
Podemos citar ainda o assédio contra mulheres no serviço público brasileiro. Esse crime tem registrado um aumento significativo e preocupante. Dados recentes de 2025 e início de 2026 mostram uma escalada nas denúncias e processos, tanto no âmbito federal quanto na Justiça do Trabalho.
Processos por assédio sexual no trabalho aumentaram cerca de 40% em 2025. Denúncias e processos relacionados a assédio moral no trabalho também registraram crescimento superior a 20% em 2025. Em 2025, foram contabilizadas 142 mil novas ações relacionadas a assédio sexual. O número de ações de assédio moral no trabalho cresceu 28% entre 2023 e 2024.
Os homens estão perdendo os seus privilégios e não conseguem se adaptar à nova realidade. Eles não conseguem mais controlar suas casas e famílias e reagem negativamente. Diante deste fato, as mulheres têm se afastado ao menor sinal de violência e eles têm perdido o controle emocional de suas vidas e reagido da única forma que aprenderam a reagir desde criança: com mais violência. Afinal, homem não apanha! Homem que é homem jamais leva a pior.
É aí que surgem as agressões verbais e físicas que têm no crime de feminicídio a sua última escala. Ou os homens buscam um novo papel social para eles ou eles serão tragados por sua própria ignorância. Isolados na estupidez redpill masculina.
As mulheres já são senhoras de si e não precisam mais do casamento para serem felizes! Não precisam de filhos. Já recebem seus salários, em muitos casos maiores que os dos homens. Muitas estão com muito medo de se relacionar. Traumatizadas. Nesses casos, ou elas conquistam relações leves ou preferem estar, muito bem, sozinhas. Na companhia de suas amigas irmãs.
Diante desse fosso cultural que está sendo formado, é mais que urgente uma reformulação de toda a sociedade e uma revisão na forma de educarmos nossos filhos e filhas. Nossos meninos - crianças, jovens e adultos - precisam compreender, de uma vez por todas, que eles não são superiores e não podem agredir, de forma alguma, as meninas. E elas precisam aprender a identificar a violência ao menor sinal!