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A mediocrização econômica: como o Brasil abdicou de pensar grande


Política de juros elevados sacrifica produção, emprego e futuro em nome de modelo financeirizado que beneficia poucos

Publicado: 10/02/2026

Do GGN

Quinze anos de convivência com golpismo, discurso de ódio e financeirização sem limites deixaram marcas profundas na capacidade do Brasil de pensar estrategicamente. Por limitações políticas e talvez geracionais, o país abdicou da ousadia. A mediocrização, hoje, permeia todos os poros da Nação — e em nenhum lugar isso é mais evidente do que na condução da política monetária pelo Banco Central. 

A Selic a 15%: Objetivo Único

O objetivo declarado do Banco Central é cristalino: controlar o carry trade — a operação financeira que toma emprestado recursos em países com juros baixos para aplicar em países com juros elevados. Mantendo a Selic em 15%, o Brasil atrai dólares, aprecia o câmbio e, com isso, derruba a inflação via importados mais baratos. E só.

Esse modelo, porém, cobra um preço brutal da economia real. A taxa básica de juros a 15% não é apenas um número — é uma barreira intransponível para o investimento produtivo, uma sentença de estagnação para milhões de empresas e uma alavanca de concentração de renda sem precedentes.

As contraindicações são evidentes:

?  Paralisia do investimento produtivo: Nenhum empresário investe em ampliar a produção, contratar funcionários ou inovar quando pode obter 15% ao ano sem risco algum em títulos públicos. O resultado é a esterilização sistemática da capacidade produtiva brasileira.

?  Explosão de recuperações judiciais: O Brasil encerrou 2025 com um recorde histórico de 5.680 empresas em regime de recuperação judicial — alta de 24,3% em relação a 2024. Enquanto as entradas explodem, as saídas são lentas: apenas 561 empresas conseguiram concluir seus processos de reestruturação no ano. Micro e pequenas empresas, que representam 80% dos pedidos, estão sendo massacradas.

?  Endividamento familiar insustentável: Aproximadamente 29,2% das famílias brasileiras têm dívidas em atraso. Mais grave: cerca de 12,1% das famílias admitem que não terão condições de pagar suas dívidas vencidas no próximo mês. É um ciclo vicioso — juros altos encarecem o crédito, famílias se endividam, consomem menos, empresas vendem menos, economia estagna.

Reformas Pró-Bancos, Ausência de Contrapartidas

Nos últimos anos, toda reforma do Banco Central teve um único beneficiário: o sistema financeiro. Em nome da “modernização do mercado de crédito”, facilitou-se drasticamente a vida dos bancos credores, mas nada foi feito para tornar o crédito acessível ao cidadão comum ou às empresas produtivas.

Permitiu-se a execução extrajudicial de imóveis, reduzindo o prazo de retomada de seis anos (via Justiça) para seis meses (via cartório). Criaram-se as garantias recarregáveis, permitindo usar o mesmo imóvel para múltiplos empréstimos sucessivos. As duplicatas foram digitalizadas e registradas, eliminando o risco da “duplicata fria” e reduzindo drasticamente fraudes.

O ápice do absurdo foi permitir o uso do FGTS como garantia para crédito. Em caso de desemprego — justamente o momento em que o trabalhador mais precisa de recursos —, o banco credor tem garantia total para receber seu crédito, em detrimento das necessidades pessoais e familiares do cidadão.

E qual foi a contrapartida? Nenhuma. O spread bancário brasileiro permanece entre os mais altos do mundo, oscilando entre 30 e 40 pontos percentuais. Mesmo com todas essas reduções de risco operacional, os bancos não repassaram benefícios aos clientes.

A Ausência de um Projeto Nacional

O que mais assusta não são os números isolados, mas a ausência completa de horizonte. Não há plano, não há meta, não há objetivo de transformar o mercado de crédito em um direito do cidadão. Não há estratégia para fazer do crédito barato uma ferramenta de crescimento econômico.

Países que superaram o subdesenvolvimento — Coreia do Sul, Taiwan, China — usaram o sistema financeiro como ferramenta de política industrial, não como fim em si mesmo. Direcionaram crédito para setores estratégicos, subsidiaram investimentos produtivos, construíram capacidade tecnológica.

No Brasil de hoje, o Banco Central opera com mandato único (controle da inflação), sem considerar emprego ou desenvolvimento. Não há direcionamento estratégico do crédito. O sistema financeiro extrai renda da sociedade em vez de financiar sua transformação produtiva.

A pergunta que fica é incômoda: essa configuração reflete incapacidade técnica ou captura política? Os beneficiários desse modelo concentrado têm poder suficiente para bloquear qualquer alternativa?

Caminhos Possíveis — Mas Não Trilhados

Uma reforma estrutural do sistema financeiro brasileiro exigiria coragem política e visão de longo prazo. Algumas medidas seriam essenciais:

?  Revisão do mandato do BC: Incluir crescimento econômico e emprego entre os objetivos da autoridade monetária, como faz o Federal Reserve americano.

?  Política de crédito direcionado: Estabelecer metas obrigatórias de financiamento produtivo para bancos públicos e privados.

?  Regulação efetiva do spread: Criar teto legal para o spread bancário ou exigir justificativa pública para suas margens.

?  Reforma tributária financeira: Taxar pesadamente operações especulativas e desonerar crédito produtivo de longo prazo.

?  Política cambial ativa: Deixar de entregar a taxa de câmbio ao sabor do carry trade internacional.

Nada disso está no horizonte. O país parece ter normalizado crescer 2% ao ano, conviver com desemprego estrutural, aceitar concentração obscena de renda e assistir passivamente enquanto o sistema financeiro parasita a economia real.

A Normalização da Mediocridade

A mediocrização institucional brasileira não é acidente. É resultado de décadas de captura do Estado por interesses financeiros, da renúncia a qualquer projeto nacional de desenvolvimento, da naturalização de uma economia que serve a poucos em detrimento de muitos.

Enquanto o Banco Central mantiver como único objetivo atrair capital especulativo via juros estratosféricos, o Brasil permanecerá condenado à estagnação. Empresas continuarão quebrando aos milhares, famílias afundando em dívidas impagáveis, investimentos produtivos sendo sufocados.

A questão não é técnica. É política. E a resposta à pergunta “podemos fazer diferente?” é simples: sim, podemos — se houver vontade de romper com os interesses que se beneficiam desse modelo fracassado.

Por enquanto, o Brasil segue medíocre. E confortável com sua mediocridade.



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