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Acordo Mercosul-União Europeia: Riscos de Desindustrialização


Enquanto o acordo promete integração comercial, a estrutura de custos brasileira pode levar à substituição de produção por importação

Publicado: 20/01/2026

Do GGN

O Brasil possui custos de produção industrial superiores aos europeus na maioria dos setores estratégicos. Sem políticas industriais compensatórias, o país corre o risco de se transformar em mercado consumidor de produtos europeus, em vez de manter-se como polo produtivo.

Vamos a uma análise comparativa dos custos de produção nos principais setores industriais, com base mas estudos da Eurostat, da Comissão Europeia, OCDE e UNIDO.

A Equação de Custos: Onde o Brasil Ganha e Perde

Vantagens Competitivas Brasileiras
  • Energia: 2 a 3 vezes mais barata que na Europa
  • Mão de obra: Custos salariais significativamente menores

Desvantagens Estruturais Críticas

  • Juros altíssimos: Encarecem capital de giro e investimentos
  • Impostos indiretos: Elevados e complexos (embora a reforma tributária prometa melhorias)
  • Logística: Cara e ineficiente, elevando custos de distribuição
  • Produtividade: Inferior aos padrões europeus
  • Segurança jurídica: Apenas média, gerando incertezas

O problema central: as desvantagens superam as vantagens em setores de maior valor agregado.

Competitividade por Setor (Índice: Europa = 100)

Automotivo: 92 a 105

O Brasil praticamente perdeu a vantagem de custo.

A produção nacional compete em condições similares ou piores que a europeia. Com a eliminação gradual das tarifas (atualmente até 35%), a importação de veículos prontos torna-se economicamente mais atraente.

Impactos esperados:

  • Aumento de 25% nas importações de veículos europeus
  • Pressão sobre fábricas locais e empregos industriais
  • Risco para a cadeia nacional de autopeças

Quem ganha: Montadoras europeias
Quem perde: Cadeia de fornecedores nacionais

Farmacêutico: 115 a 140

Produzir no Brasil custa até 40% mais que na Europa

O setor enfrenta múltiplas fragilidades:

  • Dependência quase total de insumos químicos importados
  • Regulação lenta e burocrática
  • Escala de produção reduzida
  • Alto custo financeiro

Na prática, a indústria brasileira realiza principalmente montagem final, enquanto produtos de maior valor agregado já vêm prontos da Europa.

Impactos esperados:

  • Aumento de 6% a 12% nas importações
  • Risco de desindustrialização farmacêutica
  • Maior dependência externa em saúde pública

Quem ganha: Big pharma europeia
Quem perde: Indústria nacional de genéricos

Máquinas e Equipamentos: 110 a 130

Diferença brutal: Brasil até 30% mais caro

A cadeia produtiva europeia é madura e integrada. No Brasil:

  • Fornecedores locais são escassos
  • Peças e componentes precisam ser importados
  • Estoques caros devido aos juros elevados

Com redução de tarifas (até 18%), importar equipamentos prontos torna-se mais vantajoso que produzir localmente.

Impactos esperados:

 
  • Aumento de 10% nas importações
  • Perda de capacidade de engenharia local
  • Redução de investimentos em P&D
  • Eliminação de empregos qualificados

Quem ganha: Alemanha e Itália
Quem perde: Fabricantes nacionais

Elétricos e Automação: 105 a 125

Brasil 15% a 25% mais caro

O país já importa produtos premium. As fábricas locais concentram-se em modelos antigos e de menor complexidade tecnológica.

O Comportamento Real das Multinacionais Europeias

Volkswagen, Stellantis, BMW

  • Componentes importados da Europa
  • Produção local condicionada a incentivos fiscais e tamanho de mercado
  • Com o acordo: mais importação de veículos prontos, menos investimentos industriais novos

Sanofi, Bayer, Roche

Estratégia: Produção limitada no Brasil

 
  • Maior valor agregado vem importado da matriz europeia
  • Com o acordo: Brasil consolida-se como mercado consumidor, não polo industrial

Siemens, Bosch, ABB

Estratégia: Diferenciação por geração tecnológica

  • Fábricas brasileiras produzem modelos antigos
  • Produtos premium importados da Europa
  • Com tarifa zero: importação substitui produção local

Impacto Macroeconômico Projetado

Efeitos Colaterais Estruturais

  • Redução de investimentos produtivos
  • Pressão sobre empregos industriais qualificados
  • Diminuição de atividades de P&D local
  • Risco central: Brasil transforma-se em “showroom tecnológico europeu”

Conclusão: O Desafio da Política Industrial

Sem uma política industrial robusta que endereça:

  • Custo do capital (juros)
  • Infraestrutura logística
  • Produtividade industrial
  • Desenvolvimento de cadeias de fornecedores
  • Investimento em P&D e inovação

O acordo pode acelerar a desindustrialização em setores estratégicos, aumentando a dependência externa justamente nas áreas de maior conteúdo tecnológico e empregos qualificados.



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