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SINDICATO DOS SERVIDORES PÚBLICOS FEDERAIS NO ESTADO DE PERNAMBUCO
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Publicado: 26/06/2026
Do GGN
É o maior escândalo da história do moderno mercado de capitais brasileiro. Durante anos, uma das campeãs da B3, a Americanas, escondeu um passivo que, pelas últimas atualizações, chegou a R$ 40 bilhões. E tudo sob a tutela dos três maiores bilionários do país — Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles, da 3G —, que se tornaram, nas últimas décadas, o símbolo máximo do capitalismo financeiro brasileiro.
Na época do estouro da Americanas, Jornal GGN foi o único a explicar os principais lances do golpe, que mostravam uma articulação entre os controladores – representado por Beto Sucupira – e a diretoria da Americanas.
São os mais bem sucedidos representantes dos chamados “piranhas financeiras”, a geração que ascendeu com a financeirização da economia, seguindo as lições de Jack Welch – o trágico gestor que afundou a GE, a mais tradicional empresa industrial norte-americana. Seu modelo é o de assumir o controle de empresas e depena-la até o último dividendo, cortando investimentos, manutenção, planos estratégicos em favor unicamente dos dividendos.
Peça 1 — como o golpe começa a ser armado
No caso da Americanas, o primeiro passo do golpe foi mudar a composição acionária, com os sócios da 3G se afastando do Conselho de Administração e reduzindo sua participação na Americanas.
Segundo a UOL, um laudo encomendado pela própria Lojas Americanas avaliou seu patrimônio líquido em R$ 10,3 bilhões, contra R$ 25,9 bilhões da Americanas. Os controladores tinham 38,2% da Lojas Americanas, com 60,8% das ordinárias.
O mercado reagiu mal. Mas o presidente Miguel Gutierrez tratou de acalmar, em registro que hoje soa como deboche: “Tudo na vida tem um amadurecimento. Como os bons vinhos, vão decantando, criando corpo, criando novas perspectivas.”
Peça 2 — a cumplicidade dos executivos
O segundo movimento foi obter a adesão dos executivos, compensando o risco penal com remunerações altíssimas.
Ainda assim, choveram bônus milionários. Em 2018, decisão do TRF da 2ª Região derrubou liminar de 2010 e obrigou a CVM a divulgar os salários dos executivos de empresas abertas: o do presidente da Lojas Americanas era o sexto mais alto do país, acima de Vale, Bradesco, Ambev e Braskem. Os diretores estatutários receberam cerca de R$ 34 milhões em 2019, R$ 35 milhões em 2020 e R$ 36 milhões em 2021. Com os maus resultados escondidos nos balanços, a única explicação plausível para essa generosidade é o cala-boca — o preço da cumplicidade.
Peça 3 — o fator Sérgio Rial
Rial foi presidente festejado do Santander, um dos credores da Americanas. Em 19 de agosto de 2022, seu nome foi anunciado para a presidência do grupo. O anúncio causou estranheza: ele presidia o Conselho da Vibra e não tinha experiência em varejo. Mesmo assim, as ações, que vinham caindo, subiram 22,5% no primeiro pregão seguinte e 18,3% no segundo.
Foi justamente nesse período que, segundo dados da CVM, os diretores da Americanas venderam R$ 223 milhões em ações entre julho e outubro de 2022, a um preço médio de R$ 16,22. Como observou o Metrópoles, entre o anúncio de Rial e outubro de 2022 — véspera das eleições — as ações dispararam 61%, e a venda de R$ 223 milhões foi um movimento na contramão da alta.
O rombo não atingiu só os acionistas: contaminou os impostos pagos pelos bancos credores. Se um banco provisiona R$ 3 bilhões, o lucro cai R$ 1,8 bilhão e os tributos a pagar recuam mais de R$ 1,2 bilhão. Pelos cálculos de mercado, o fator Americanas deveria reduzir o lucro do Bradesco em R$ 1,8 bilhão, o do Itaú em R$ 1 bilhão e o do Banco do Brasil em R$ 400 milhões.
Peça 4 — a estratégia Rial
A defesa da Americanas se armou nos campos financeiro e jurídico. Menos de três horas antes do fato relevante, a empresa tentou resgatar R$ 800 milhões investidos no BTG. Ao mesmo tempo, obteve liminar do juiz Paulo Estefan, da 4ª Vara Empresarial do Rio, impedindo qualquer antecipação de pagamento a credores e ainda obrigando o BTG a devolver R$ 1,2 bilhão que já recuperara.
Pelo contrato com a Americanas, o foro correto seria São Paulo. O juiz não só aceitou o pedido como indicou para a administração judicial o escritório Zveiter, de Sérgio Zveiter — irmão do ex-presidente do TJ-RJ Luiz Zveiter e membro de uma família de larga influência nos tribunais fluminenses. O detalhe curioso: o mesmo Zveiter atua como advogado da Americanas. O BTG recorreu, mas a decisão foi mantida pelo desembargador de plantão, Luiz Roldão de Freitas Gomes Filho.
Veio então nova retificação, que elevou a estimativa de passivos a R$ 40 bilhões. As ações caíram a R$ 1,98. A esse preço, investindo apenas 6,6% do que arrecadaram com a venda dos papéis, a 3G recompraria a mesma participação de antes. No fim do dia, Rial renunciou também ao posto de assessor do trio, substituído pela Rothschild.
Peça 5 — o histórico da 3G
Em 2005, o administrador da Ambev Luiz Felipe Pedreira Dutra Leite teria autorizado transferência indevida de ações ordinárias, divulgando informações incorretas ao mercado e desvirtuando o plano de opção de compra da companhia, de modo a ampliar a fatia dos controladores em prejuízo dos minoritários. Em 2019, foi a vez de um escândalo internacional com a Kraft Heinz, adquirida pela 3G: descobriu-se a supervalorização de ativos entre 2015 e 2018, e a companhia teve de fazer um ajuste de US$ 15,4 bilhões no balanço.
Peça 6 — as consequências jurídicas e o caso Eletrobras
Mas o ponto central é outro: o episódio expõe o estilo do grupo que assumiu, de fato, o controle da Eletrobras. O grande crescimento da 3G se deu sobre lobbies junto ao setor público.
Foi assim na aprovação, pelo Cade, da compra da Antarctica pela Brahma — já sob o comando dos três futuros bilionários. A aprovação foi um dos episódios suspeitos do governo Fernando Henrique Cardoso, e resultou na destruição da rede de distribuidores da Antarctica e na cartelização do mercado de cervejas. Para abrir caminho, a empresa contratou Milton Seligman, ex-Ministro de FHC.
A delação final
A manobra foi revelada na delação do ex-diretor financeiro Fabio Abrate, o “plano B” da estratégia dos controladores da Americanas era a entrada da companhia em recuperação judicial.
De acordo com o delator, o acionamento do plano B ocorreu da seguinte forma:
Essa delação fundamentou a decisão da Polícia Federal de providenciar busca e apreensão em endereços de controladores e executivos.
A diferença em relação à primeira fase é exatamente o alvo. Em junho de 2024, a primeira fase mirou a antiga diretoria estatutária — foi quando Miguel Gutierrez chegou a ser preso na Espanha e depois solto —, e, em março de 2025, o MPF denunciou 13 ex-executivos e ex-funcionários por maquiar resultados e ocultar a situação real da empresa. Agora a investigação rompe a bolha da diretoria e avança sobre os donos do capital e sobre o sistema financeiro. O foco passou a ser os acionistas de referência, operadores ligados aos sócios e executivos de bancos que mantinham relação com a varejista no período das supostas irregularidades.
Entre os alvos, no núcleo dos sócios: os acionistas de referência Carlos Alberto da Veiga Sicupira e Paulo Alberto Lemann, além de Eduardo Saggioro Garcia, apontado como operador direto dos sócios. No núcleo bancário — e este é o desdobramento novo, que a coluna original não alcançava —, são alvos José de Castro Araújo Rudge Júnior e Gustavo Balassiano (Itaú Unibanco), Carlos Henrique Villela Pedras (Bradesco) e André Juaçaba de Almeida e Alexandre Lian Abdo (Santander).