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Brasil e China apontam o caminho para a defesa do multilateralismo e da paz mundial


Num tempo em que o governo Trump investe nas guerras comerciais, na intimidação militar e na interferência política sobre outras nações, Brasil e China apontam outro caminho

Publicado: 27/07/2026

Lula, Xi e os Panda Bonds

Do Brasil 247
Por Leonardo Attuch

Em um momento em que o mundo parece caminhar perigosamente para uma nova era de confrontações entre grandes potências, a conversa telefônica entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente Xi Jinping representa muito mais do que um diálogo bilateral. Ela sinaliza a consolidação de uma visão justa da ordem internacional, baseada no multilateralismo, na cooperação entre países soberanos, no comércio limpo e na busca de soluções negociadas para os conflitos.

O telefonema ocorre em um momento particularmente conturbado, em que o governo de Donald Trump aposta simultaneamente na guerra comercial e na lógica da guerra. Tarifas, sanções, ameaças e pressões econômicas são utilizadas como instrumentos de coerção contra países que procuram preservar sua soberania e defender seus próprios interesses nacionais.

A política externa do governo Trump não se limita, porém, à disputa comercial. Washington também busca interferir claramente nos processos políticos e eleitorais da América Latina, tentando influenciar as escolhas soberanas dos povos da região e favorecer forças de extrema-direita, alinhadas aos interesses estratégicos dos Estados Unidos.

Essa postura representa uma ameaça não apenas aos países diretamente atingidos, mas ao próprio princípio democrático de que cada sociedade deve ter o direito de escolher livremente seus governantes e definir os rumos de seu desenvolvimento. A defesa da soberania nacional, portanto, tornou-se inseparável da defesa da democracia e do multilateralismo.

O sistema internacional também vive uma profunda crise de governança. As Nações Unidas mostram-se incapazes de impedir guerras ou de mediar conflitos que colocam em risco a humanidade. O Conselho de Segurança permanece frequentemente paralisado, enquanto o planeta assiste à continuidade da guerra na Ucrânia, à tragédia humanitária em Gaza, às tensões no Oriente Médio, com destaque para as constantes agressões ao Irã, e ao agravamento da rivalidade entre as grandes potências.

É justamente diante desse cenário que Brasil e China oferecem uma resposta distinta. Em vez da lógica dos blocos militares, das intervenções externas, das sanções unilaterais e da política de poder, defendem o fortalecimento das instituições multilaterais, o diálogo permanente, o respeito à soberania dos Estados e a solução pacífica das controvérsias.

Como grandes nações do BRICS, Brasil e China podem liderar uma agenda internacional baseada na defesa do comércio justo e da paz mundial. Os dois países possuem dimensão territorial, peso econômico, capacidade diplomática e legitimidade política para articular uma resposta do Sul Global às crescentes ameaças de fragmentação da economia mundial e de escalada dos conflitos militares.

Não é por acaso que Xi Jinping destacou o papel de Brasil e China como importantes representantes do Sul Global. Tampouco foi casual a reafirmação, por parte de Lula, da importância do Grupo de Amigos da Paz para a construção de uma solução negociada para a guerra na Ucrânia. Trata-se de uma diplomacia que procura criar condições concretas para o diálogo, em vez de alimentar a escalada permanente das tensões.

A convergência entre Brasília e Pequim também ocorre no campo econômico. Os dois países entendem que desenvolvimento, estabilidade e paz caminham juntos. A ampliação da cooperação em inteligência artificial, satélites, minerais críticos, energia e fertilizantes demonstra que a parceria sino-brasileira deixou de ser apenas comercial para se transformar em uma relação estratégica para o século XXI.

Nesse contexto, ganha enorme importância a defesa de um acordo entre o Mercosul e a China. Em um momento em que o protecionismo e as guerras tarifárias voltam a crescer, ampliar mercados, integrar cadeias produtivas, estimular investimentos e promover relações econômicas equilibradas torna-se uma resposta racional à fragmentação da economia internacional.

O comércio não pode ser utilizado como arma de dominação política. Deve funcionar como instrumento de desenvolvimento compartilhado, geração de empregos, inovação tecnológica e melhoria das condições de vida dos povos. Esse é um dos pontos centrais da agenda que Brasil e China podem construir conjuntamente no BRICS e em outros fóruns multilaterais.

O fortalecimento das relações entre os países do Sul Global torna-se, assim, parte essencial da construção de uma agenda de paz e desenvolvimento. Quanto maior for a cooperação entre essas nações, menor será sua vulnerabilidade diante de sanções, pressões econômicas, bloqueios financeiros e interferências externas.

Essa aproximação não significa a criação de um novo bloco fechado nem a substituição de uma hegemonia por outra. Significa ampliar a autonomia dos países em desenvolvimento, diversificar parceiros e criar uma ordem internacional em que nenhuma potência possa impor unilateralmente suas decisões ao restante do mundo.

A aproximação entre Brasil e China também desafia a ideia de que o sistema internacional deve necessariamente organizar-se em torno de um único centro de poder. A realidade aponta para uma ordem multipolar, na qual diferentes polos econômicos, tecnológicos e políticos precisam conviver e construir mecanismos permanentes de coordenação.

É nesse ambiente que o BRICS assume protagonismo crescente. O grupo já não representa apenas um conjunto de grandes economias emergentes. Torna-se um espaço político de articulação capaz de influenciar os debates sobre financiamento ao desenvolvimento, inteligência artificial, comércio internacional, reforma das instituições multilaterais, soberania nacional e segurança global.

Brasil e China compreendem que o século XXI não será definido apenas pela disputa por mercados, recursos naturais ou tecnologias. Será determinado também pela capacidade de construir uma governança internacional mais representativa, capaz de substituir a lógica da 

Ao reafirmarem conjuntamente a defesa do multilateralismo, do comércio justo, da soberania, da reforma da governança global e da solução negociada dos conflitos, Lula e Xi Jinping oferecem uma mensagem que transcende os interesses nacionais de Brasil e China.

Num tempo em que o governo Trump investe nas guerras comerciais, na intimidação militar e na interferência política sobre outras nações, Brasil e China apontam outro caminho: o da soberania, da cooperação, do desenvolvimento compartilhado e da paz.

O fortalecimento dessa parceria e das relações entre os países do Sul Global pode representar uma das mais importantes forças de equilíbrio da política internacional contemporânea. Mais do que construir pontes entre Brasília e Pequim, trata-se de ajudar a erguer as bases de uma nova ordem mundial, mais democrática, mais justa e menos submetida à lógica da guerra.



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