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Crise climática agrava insegurança alimentar e transmissão de doenças infecciosas

Fonte: Rede Brasil Atual
25/10/2021



  • Luta contra as mudanças climáticas exige que todos os países forneçam uma resposta urgente e coordenada, alertam cientistas - Reprodução

 

Rede Brasil Atual

 

Tradução a partir de Agência Sinc – Todos os anos, desde 2016, é publicado o relatório Lancet Countdown, que analisa o impacto da crise climática na saúde. Graças à colaboração de pesquisadores importantes, como o espanhol Jaime Martínez-Urtaza, do Departamento de Genética e Microbiologia da Universidade Autônoma de Barcelona, em instituições acadêmicas internacionais – 38 na ocasião – e agências das Nações Unidas, este trabalho reúne indicadores novos, atualizados e aprimorados que monitoram independentemente as consequências para a saúde das mudanças climáticas.

Este relatório com 44 indicadores alerta para um “código vermelho”. E indica “um aumento implacável dos efeitos das mudanças climáticas na saúde humana e as consequências da resposta inconsistente e tardia dos países ao redor do mundo sobre a saúde”.

Sua publicação também coincide com a iminente realização da 26ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP26) em Glasgow (Reino Unido), na qual os países enfrentam pressão para tornar realidade o ambicioso Acordo de Paris. Entre os objetivos estabelecidos, um dos mais urgentes é manter o aumento da temperatura média global em 1,5 °C. Além de mobilizar os recursos econômicos necessários para que todos os países tenham uma resposta climática eficaz.

Doenças infecciosas que ameaçam
Ainda que o desenvolvimento socioeconômico, as intervenções em saúde pública e os avanços da medicina tenham diminuído a carga global de transmissão de doenças infecciosas,as mudanças climáticas poderiam dizimar os esforços de controle e erradicação, segundo esse relatório.

O número de meses com condições ambientalmente adequadas para a transmissão da malária (Plasmodium falciparum) aumentou 39% entre os períodos de 1950 a 1959 e de 2010 a 2019, em áreas densamente povoadas de maior altitude e com baixo índice de desenvolvimento humano (IDH). “Esse aumento da aptidão ambiental representa uma ameaça para as populações altamente desfavorecidas dessas áreas, que eram relativamente mais seguras em relação à malária do que aquelas em terras mais baixas”, disseram os autores.

Por sua vez, o potencial epidêmico dos vírus da dengue, zika e chikungunya, que atualmente afetam principalmente populações na América Central, América do Sul, Caribe, África e Sul da Ásia, aumentou em escala global. Por outro lado, com o aumento das temperaturas médias e a alteração dos regimes pluviométricos, a crise climática começa a reverter os anos de progresso na luta contra a insegurança alimentar e hídrica que ainda afeta as populações mais vulneráveis do mundo.

Em 2020, secas extremas afetaram até 19% da área terrestre mundial. Um valor que não havia excedido 13% entre 1950 e 1999. Paralelamente às secas, o aumento das temperaturas está afetando o potencial de produção das principais culturas.

Nesse mesmo ano, em relação ao que aconteceu entre 1981 e 2010, houve redução do potencial de produção de 6% no caso do milho, 3% no caso do trigo de inverno, 5,4% no caso da soja e 1,8% no caso do arroz. Especialistas dizem que isso se traduz em risco crescente de insegurança alimentar global.

“Os riscos simultâneos e interconectados colocados por eventos climáticos extremos,transmissão de doenças infecciosas e as inseguranças alimentar, hídrica e financeira estão sobrecarregando as populações mais vulneráveis. Por meio de múltiplos riscos simultâneos e interativos, as mudanças climáticas ameaçam reverter anos de progresso na saúde pública e no desenvolvimento sustentável.”

Desigualdades agravam a situação
Em uma análise comparativa com o que aconteceu durante a crise de covid-19, os autores deste trabalho enfatizam que, em 10 meses de 2021, não houve acesso global e equitativo à vacina covid-19. “Mais de 60% das pessoas em países de alta renda receberam pelo menos uma dose da vacina, em comparação com apenas 3,5% das pessoas em países de baixa renda. Os dados deste relatório expõem desigualdades semelhantes quando se trata da resposta global à mitigação das mudanças climáticas.”

Por outro lado, a resposta está sendo desigual entre os países também em termos de cumprimento das metas do Acordo de Paris, que visa a reduzir pela metade as emissões globais de gases de efeito estufa em uma década. No ritmo atual, levaria mais de 150 anos para o sistema de energia descarbonizar totalmente.

“Com um planeta enfrentando um inevitável aumento da temperatura, mesmo que a mitigação mais ambiciosa das mudanças climáticas fosse implementada, a adaptação acelerada seria essencial para reduzir a vulnerabilidade das populações às mudanças climáticas e proteger a saúde das pessoas em todo o mundo.”

Para especialistas, a pandemia global tem impulsionado um maior compromisso com a saúde e as mudanças climáticas em várias áreas da sociedade. Por exemplo, com a participação de 91 chefes de Estado no debate geral da ONU de 2020. E um compromisso recentemente estendido entre os países do grupo de IDH muito alto. Mas eles acreditam que “resta saber se a recuperação da covid-19 favorece ou contraria essas tendências”.

“A luta contra as mudanças climáticas exige que todos os países forneçam uma resposta urgente e coordenada, com a alocação de fundos de recuperação em relação à covid-19, para apoiar e garantir uma transição justa para um futuro de baixo carbono e adaptação às mudanças climáticas em todo o planeta. Os líderes mundiais têm uma oportunidade sem precedentes de entregar um futuro com melhor saúde, menos desigualdades e sustentabilidade econômica e ambiental. No entanto, só será possível se o mundo agir em conjunto para garantir que ninguém fique para trás.”

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