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SINDICATO DOS SERVIDORES PÚBLICOS FEDERAIS NO ESTADO DE PERNAMBUCO
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Publicado: 25/03/2026
Enquanto a guerra no Oriente Médio completa sua quarta semana e o preço do petróleo oscila no mercado internacional, o brasileiro sente no bolso os reflexos do conflito. Mas por que o Brasil — um dos maiores produtores de petróleo do mundo — é tão vulnerável a crises externas? A resposta, segundo especialistas, está no desmonte do parque de refino nacional e na privatização de ativos estratégicos da Petrobras ao longo da última década.
“Uma coisa é a produção de petróleo, outra é a de derivados e outra é a distribuição. O Brasil é autossuficiente no petróleo, mas não é autossuficiente no refino e privatizou completamente a distribuição”, explica Vieira.
Por sua vez, Juliane Furno lembra que, nos anos 2000, a Petrobras tinha um projeto de ampliar sua capacidade de refino, com obras como a refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, e o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), hoje chamado Boaventura. “No período de 2016 a 2023, fomos na contramão. Ao invés de seguir investindo, a gente paralisou as obras e vendeu refinarias que já existiam, como a Refinaria Landulpho Alves (RLAM), na Bahia, a Clara Camarão, no Rio Grande do Norte, e a Reman, no Amazonas.”
Furno também explica que a Petrobras tem condições de absorver parte do impacto da alta internacional. “O Brasil importa cerca de 25% do diesel que consome. O grosso dos preços é dado em reais, portanto não está completamente sujeito à dinâmica global. A Petrobras é uma empresa estatal e deve perseguir não só os objetivos microeconômicos, mas também a missão de garantir autossuficiência e segurança energética a preços acessíveis.”
Ela defende que a empresa poderia amortecer o aumento do preço internacional, reduzindo sua margem de lucro. “A Petrobras vai quebrar por isso? Não. Ela é uma empresa lucrativa, superavitária. O que vai acontecer é que os acionistas privados vão receber menos dividendos.”
Vieira complementa que a Petrobras já vinha distribuindo mais de 100% do lucro líquido em dividendos em governos anteriores. “No atual governo, voltou ao patamar dos anos 2000, em torno de 35% do lucro em dividendos. Isso é uma queda de braço importante.”
Sobre a política de Preço de Paridade de Importação (PPI), adotada no governo Temer e aprofundada por Bolsonaro, Vieira explica o impacto. “O PPI foi criado para incentivar a privatização das refinarias. A lógica era: para abrir o mercado para importadores, a Petrobras passaria a vender seu produto ao mesmo preço do importado, mesmo tendo custo menor. Isso fez com que a gente passasse a vender com preço internacional, sem fazer sentido para a nossa economia.”
Ela compara os aumentos recentes: “Enquanto a Petrobras aumentou o diesel 11% em um mês, a Acelen, que comprou a refinaria na Bahia, aumentou 74%. Se o PPI estivesse em vigor, estaríamos enfrentando aumentos como os da Acelen.”
Furno aponta a contradição do modelo atual. “O Brasil produz muito petróleo cru, mas não tem capacidade de refino. Hoje exportamos petróleo e importamos diesel e gasolina. A Petrobras, por ser uma empresa integrada, pode compensar: ela amortece o preço para o consumidor na ponta da distribuição e compensa com o lucro maior na exportação de petróleo cru.”
Viera elogia a medida recente do governo de taxar a exportação de petróleo cru e derivados. “É uma forma mais inteligente de a estatal contribuir com a sociedade, via imposto, não via aumento na bomba. Isso já é um avanço.”
Sobre a proposta do presidente Lula de reestatizar refinarias como a Clara Camarão, ela acrescenta que “as refinarias foram vendidas a preço de banana. A RLAM foi vendida abaixo do preço do seguro. Isso abre espaço para questionamentos jurídicos sobre crimes de lesa-pátria. A reestatização é possível, mas exige negociação com os compradores.”
Furno acrescenta que, mesmo que a reestatização não se concretize imediatamente, o debate político já é importante. “A sinalização do governo de que está de olho, que isso aqui não é terra de ninguém, já ajuda a enquadrar essas empresas a se comportarem melhor.”
Cibele Vieira tranquiliza a população sobre que não há um “risco concreto” de desabastecimento. “A gente importa em torno de 20% do que consome. Dependendo das medidas, há risco de aumento de preço, mas nada comparado ao que se vê lá fora. As medidas que a Petrobras e o Estado brasileiro estão tomando vão amortecer as oscilações internacionais.”
Furno reflete sobre o que está em jogo: “a Petrobras é uma empresa bifronte, desde sua criação. Mas o pêndulo hoje, sob o governo Lula, está se movendo para uma face mais estatal. A esquerda desfazer o que foi feito é mais difícil do que fazer. Mas a gente precisa enfrentar esse desmonte com coesão e capacidade.”
Já Vieira reforça que a solução é ter “capacidade instalada de refino no Brasil. Enquanto isso não acontece, as medidas do governo são paliativas, mas importantes. O que não pode é voltar ao passado.”
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