Este website utiliza cookies
Utilizamos cookies para melhorar a sua experiência, otimizar as funcionalidades do site e obter estatísticas de visita. Saiba mais
SINDICATO DOS SERVIDORES PÚBLICOS FEDERAIS NO ESTADO DE PERNAMBUCO
(81) 3131.6350 - sindsep@sindsep-pe.com.br
Publicado: 09/01/2026
A recente agressão militar dos Estados Unidos contra a Venezuela e sequestro do presidente do país, Nicolás Maduro, e da primeira-dama e deputada nacional Cilia Flores, gera debates profundos sobre a estabilidade das normas globais.
No contexto dos três anos dos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 e às vésperas de uma eleição presidencial no Brasil, especialistas apontam os riscos à soberania brasileira da nova doutrina de segurança nacional da potência do norte, que vê a América Latina como uma zona de influência exclusiva, sobre a qual se pode tudo.
E se bombardear um país soberano está permitido, o que dirá intervir em processos eleitorais. Para o cientista político Jorge Folena, não restam dúvidas de que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em condições de líder da extrema direita global, vai buscar interferir na eleição brasileira para favorecer algum candidato que promova uma política entreguista, “a exemplo do que foi o governo passado de 2019 a 2022 no Brasil”.
Por sua vez, a cientista política Mayra Goulart trata de diferenciar as realidades, do ponto de vista geopolítico, entre Venezuela e Brasil, mencionando principalmente o isolamento político do primeiro e uma política diplomática “soft power” do segundo, o que leva a especialista a descartar uma intervenção armada no país. De todo modo, Goulart prevê um cenário eleitoral difícil, marcado “pela radicalização e pelo uso intenso de desinformação em redes digitais, contando com o apoio de grandes empresários de plataformas tecnológicas associados à extrema direita mundial”.
“Então, me parece que vai ser uma eleição muito difícil e essa nova liderança nos Estados Unidos, Donald Trump com seu mandato, nesse novo cenário, é, sim, um fator que pode ter algum grau de ingerência nas eleições [do Brasil]”, acrescenta Goulart.
“Donald Trump coloca para fora toda a sua visão fascista. E o 8 de janeiro no Brasil foi uma ação fascista. Foram os fascistas no Brasil”, aponta Folena, relacionando os atos democráticos de 2023 com a política externa dos Estados Unidos que, na avaliação do cientista político, não é nova, apenas se revela mais transparente com um governo de extrema direita.
“Essa nova doutrina que o Donald Trump apresenta para a América Latina é uma doutrina que os americanos colocam em prática há 200 anos. Só que agora acentuadamente, colocada em prática por um fascista declarado, um supremacista, um homem desrespeitoso, um homem que não respeita o devido processo legal, não respeita o direito de defesa, não respeita nada”, pontua.
“Os fascistas brasileiros, liderados pelo ex-presidente, têm esse mesmo tipo de comportamento“, segue Folena. “É por isso que os fascistas brasileiros estão muito assanhados nesse momento e incentivados a pedir que haja um tipo de ação no Brasil por parte do Donald Trump semelhante a que aconteceu na Venezuela, porque é uma ação tipicamente fascista”, acrescenta.
Mayra Goulart avalia que além da ingerência direta, a política intervencionista dos Estados Unidos pode inspirar novos movimentos golpistas no país.
“Essa nova doutrina de segurança e a liderança de Donald Trump como um símbolo instiga o golpismo no Brasil com certeza, principalmente porque as nossas Forças Armadas são muito influenciadas pelos Estados Unidos. Então essa sinalização da Doutrina Monroe, do interesse nacional, da força acima da lei, pode ser, sim, um ambiente propício para proliferação dessas energias golpistas que são mantidas vivas dentro das Forças Armadas”, afirma a cientista política.
“Mesmo com a condução da investigação sobre o 8 de janeiro, essas células golpistas não foram desbaratadas e continuam reproduzindo essa ideologia”, lembra Goulart, agregando que a impunidade sobre os crimes cometidos contra a democracia fomenta ainda mais os discursos golpistas.
“Vejo com particular preocupação o avanço do PL da Dosimetria, porque passa uma sinalização de que caso haja golpismo, no final, não vai dar em nada, vai haver perdão, vai haver anistia e isso é muito preocupante porque instiga o golpismo”, alerta.
Para o cientista político Jorge Folena, a agressão militar na Venezuela expôs a fragilidade da autonomia das nações diante de um regime estadunidense autoritário, liderado pelo presidente Donald Trump. “Foi uma ação que fragilizou não só a soberania da Venezuela, mas que expõe também a soberania dos demais países do mundo. O que o Donald Trump fez prevalecer é o direito do mais forte. E isso é muito ruim para todos os povos do mundo”, aponta o especialista.
Folena argumenta que o Brasil está em uma posição vulnerável por não possuir mecanismos de defesa militar robustos. Ele alerta que, se a vontade de um líder estrangeiro prevalecer sobre as leis internacionais, o território brasileiro, incluindo a Amazônia, pode ser alvo de pressões externas indevidas.
“A partir dessa visão, Donald Trump pode fazer essa ação no Brasil, assim como ele pode fazer em qualquer país, principalmente países que não têm dissuasão. O Brasil não tem a menor dissuasão. Se vale a lei da selva, se vale a lei do mais forte e não o direito internacional, o respeito à soberania, quem não tem força militar fica sujeito a qualquer tipo de situação”, avalia.
“Se ele não gostar do presidente Lula, se ele não gostar de ninguém do Brasil, se o Brasil não fizer o que ele quiser, ou, por exemplo, se ele achar que ele tem que se apossar da Amazônia brasileira, ele vai colocar isso em prática”, completa Folena.
Para o cientista político, as ações belicistas de Donald Trump possuem caráter “tipicamente fascista”, que remonta a fatos históricos do auge do movimento segregacionista na Europa. “Esse movimento já ocorreu, por exemplo, por parte da Itália de Mussolini, que invadiu a Etiópia, impondo a lei do mais forte, uma visão colonial supremacista sobre outro país para roubar as riquezas. É o que se deu com o partido nazista na Alemanha, invadindo outros territórios na Europa”, aponta.
Já Mayra Goulart recorre ao 18 de Brumário de Luis Bonaparte, de Karl Marx, para recordar que o passado nunca se repete, “exceto como farsa ou como tragédia”. No entanto, considera a politóloga, “é possível observar alguns padrões”.
“O padrão de desrespeitar qualquer tipo de regulamentação internacional, de desrespeito pelas instâncias multilaterais do direito internacional, uma primazia do interesse nacional, que deve reger a interação na sua área de influência. E essa área de influência é uma área que deve obedecer à lógica do interesse nacional”, pontua.
Pouco antes de encerrar o ano, em dezembro de 2025, durante coletiva de imprensa no Palácio do Planalto, o Brasil de Fato questionou diretamente ao presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), se temia uma interferência do governo de Donald Trump nas eleições marcadas para o próximo mês de outubro.
O presidente Lula não foi direto na resposta e se limitou a dizer que ganhará as eleições pelos “trabalhos prestados ao país”.
“Eu tenho tanta tranquilidade da nossa relação externa, eu tenho tanta tranquilidade da nossa economia e das políticas de inclusão social que nós fizemos, da questão climática, da transição energética, que não existe um tema que eu não esteja tranquilo para debater com quem quer que seja. Então, eu acho que nós estamos muito tranquilos e aqui no Brasil a extrema direita não voltará mais a governar esse país”, disse o presidente, que já manifestava preocupação por uma ação militar estadunidense contra a Venezuela.
Lula chegou a dizer que falaria falar Trump, antes do Natal, para evitar uma guerra na Venezuela.
“Eu estou pensando: antes de chegar o Natal, eu possivelmente tenho que conversar com o presidente Trump outra vez, para saber o que é possível o Brasil contribuir para que a gente tenha um acordo diplomático e não uma guerra fratricida”, declarou o presidente, dias antes da agressão militar e do sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Flores.
Após o ocorrido, tanto a diplomacia brasileira como o próprio presidente Lula condenaram os ataques por violar as regras do direito internacional. O governo brasileiro reconheceu a presidenta interina da Venezuela, Delcy Rodríguez.