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SINDICATO DOS SERVIDORES PÚBLICOS FEDERAIS NO ESTADO DE PERNAMBUCO
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Publicado: 21/01/2026
Após uma mística cheia de simbolismo organizada pela região Sudeste, o segundo dia do 14º Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), nessa terça-feira (20), iniciou com a Plenária Conjuntura Econômica, Política e Agrária Brasileira.
O debate contou com a análise da economista, professora da Universidade Federal Fluminense e do coletivo de professores do MST Juliane Furno; o professor do Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (CPDA), da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) Sérgio Leite e o professor de economia política internacional no Bacharelado de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC e diretor da Fundação Perseu Abramo, Valter Pomar.
Juliane Furno apresentou uma análise profunda que conecta a dinâmica internacional às dificuldades cotidianas do povo brasileiro. Para ela, não é possível compreender o Brasil sem entender que somos uma economia dependente, cujos rumos são fortemente impactados pelo cenário global.
Furno explica que o período entre 1930 e 1980, marcado por forte intervenção estatal e crescimento industrial no Brasil, foi, na verdade, uma exceção histórica possibilitada por um contexto global específico, como a reconstrução pós-guerra e a rivalidade com a União Soviética. Naquela época, as potências imperialistas permitiram que a periferia criasse certa autonomia.
Contudo, segundo ela pontua, desde a década de 1980 vivemos uma nova fase: “o capitalismo neoliberal, onde a face financeira prevalece sobre a industrial”. Nessa nova configuração, o imperialismo americano é menos complacente, ditando as ações dos estados nacionais e fechando nossas “margens de manobra” para políticas intervencionistas.
“Chantagem” do mercado e a exploração do trabalho
A economista destaca que a financeirização gera uma busca incessante por lucros através de juros e especulação, tentando “fazer dinheiro a partir de dinheiro”. No entanto, como apenas o trabalho humano gera valor real, essa lógica resulta em uma maior exploração sobre os trabalhadores para garantir os dividendos de acionistas e fundos de investimento, descritos por ela como “parasitas” da produção real.
Além disso, Furno aponta para uma “domesticação” da política através da abertura da conta de capitais. Qualquer tentativa de investimento público ou reforma agrária radical pode provocar uma fuga de capitais, gerando desvalorização da moeda e inflação. “Há uma tendência de uma grande chantagem dos mercados financeiros internacionais sobre a nossa política econômica, que, no fim das contas, é uma chantagem sobre a nossa democracia”, afirma.
A economista destaca que com a crise de 2008, o capital passou a buscar “superlucros” em setores antes protegidos: os bens públicos. Isso explica a pressão por privatizações na saúde e educação, além de mecanismos como o “teto de gastos”, que visam asfixiar os serviços públicos para que o capital privado possa ocupar esse espaço.
No cenário atual, Furno critica a manutenção de taxas de juros elevadas, que, segundo a visão liberal, servem para controlar a inflação gerando desemprego e reduzindo a renda. Ela também pontua que o novo arcabouço fiscal amarra a capacidade do governo de compensar essa desaceleração com investimentos.
Geração sem futuro
Um dos pontos centrais da fala de Furno é o paradoxo entre os indicadores macroeconômicos positivos e a percepção pessimista da população. Ela argumenta que a geração nascida nos anos 1980 e 1990 é a primeira que viverá pior do que seus pais.
Entre os motivos para essa alegação, ela aponta os empregos precários, com a erosão da CLT e a falta de direitos trabalhistas, a inacessibilidade à moradia, com a especulação imobiliária que impede a compra de imóveis, e a impossibilidade de aposentadoria, devido as reformas sucessivas que retardam o descanso dos trabalhadores.
Segundo a economista, a extrema direita tem crescido entre os jovens porque a “esquerda institucional” muitas vezes se limita a ser uma administradora do capitalismo, celebrando pequenos avanços que não mudam a condição degradante da vida.
Para Furno, o desafio central é retomar a capacidade de formular um projeto popular e econômico de ruptura anticapitalista. Ela defende que a esquerda deve ir além da gestão do “Estado burguês” e oferecer uma proposta real de futuro que resgate a mobilização social e a vocação do Brasil para a justiça e a igualdade.
O campo sob pressão
O professor Sérgio Leite centrou sua análise na questão agrária. Ele ressaltou a alarmante concentração fundiária no Brasil, destacando como a posse de terra é dominada por poucos latifúndios em detrimento da agricultura familiar e dos assentamentos que geram cidadania.
Para o pesquisador, o país enfrenta não apenas uma desigualdade histórica, mas novos processos de exploração que ele resume em três conceitos-chave: financeirização, estrangeirização e digitalização, que transformam o solo em um ativo financeiro especulativo controlado por fundos internacionais e bases de dados sem fiscalização.
Ele denuncia que esse modelo prioriza o agronegócio empresarial e as commodities, resultando em conflitos socioambientais, expulsão de comunidades tradicionais e inflação artificial dos preços das propriedades.
Sérgio Leite destaca que, embora os assentamentos de reforma agrária sejam fundamentais para gerar emprego, renda e cidadania — com mais de 1 milhão de famílias assentadas no país —, o nível de concentração fundiária permanece “absurdo”.
Segundo dados citados pelo professor, as propriedades com menos de 10 hectares representam metade de todos os estabelecimentos rurais brasileiros, mas ocupam apenas 2,3% da área. No extremo oposto, os latifúndios de mais de 1.000 hectares, que compõem apenas 1% do total de propriedades, abocanham metade das terras do Brasil. “Isso é de uma injustiça social tremenda”, afirma Leite.
Capital internacional e a guerra digital
Para além da concentração física, o professor alerta para o fenômeno da estrangeirização. Pesquisas indicam que mais de 9 milhões de hectares no Brasil são controlados por apenas 224 empresas internacionais, muitas vezes de forma violenta e sem o devido controle estatal.
Soma-se a isso a digitalização das terras, onde ferramentas como o Cadastro Ambiental Rural (CAR) têm sido alvo de disputas digitais e apropriação indébita. Leite aponta que, segundo os dados do Greenpeace, cerca de 30% das florestas públicas registradas no CAR foram apropriadas privadamente devido à falta de fiscalização e à ausência de cruzamento de dados com os cartórios reais.
leite também critica a ascensão da financeirização através de títulos como o Fiagro (Fundo de Investimento nas Cadeias Agroindustriais). “Enquanto o crédito para a agricultura familiar permanece estagnado, o Fiagro cresceu impressionantes 1.335% em apenas quatro anos.”
O professor aponta para a falta de rigor na contratação desses investimentos financeiros em comparação aos bancos tradicionais. “O Banco do Nordeste e o Banco do Brasil exigem uma série de documentos, para contratar um Fiagro, basta o documento de identidade e a carteira nacional de habilitação”, ironiza. Além disso, esses fundos não são obrigados a cumprir exigibilidades ambientais ou sociais, o que permite a prática de greenwashing, onde títulos são vendidos como “verdes” ou sustentáveis sem que as práticas no campo correspondam a esse rótulo.
“Reprimarização da economia”
Leite exemplifica os impactos dessa lógica na região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), onde fundos de investimento internacionais e empresas de soja tratam a terra como um ativo financeiro. Nessa região, o preço da terra aumentou 600% em 20 anos, expulsando trabalhadores para dar lugar à especulação.
Este modelo contribui para a reprimarização da economia brasileira, que passa a depender da exportação de produtos primários, gerando um aumento nos conflitos por terra e água e substituindo a produção de comida para o mercado local pela monocultura de commodities.
“É esse movimento de cruzamento de três grandes consensos, o consenso das commodities, o consenso de Wall Street financeiro e o consenso da descarbonização que fazem com que esse processo seja cada vez mais ávido por terras, impactando inclusive o preço das terras”, destacou.
Inspirado por uma reflexão de Albert Einstein que dizia: “A busca da felicidade não é, na realidade, o fim do tempo”, ele defendeu a “felicidade da luta”. O professor finalizou convocando para a necessidade de novas alianças internacionais. “É preciso novas alianças internacionais, urbano-rural, coisa que esse movimento já vem fazendo há muito tempo, mostrando na realidade que essas intercessões são fundamentais à luta, a busca da luta, a felicidade da luta, a felicidade da busca.”
Leite defendeu ainda que a reforma agrária deve ser encarada como um projeto estratégico de soberania fundiária, digital e alimentar. Para o professor, o caminho é a resistência contra o uso da terra para ganhos especulativos e a construção de uma reforma agrária popular e soberana.
Horizonte político
Coube ao professor Valter Pomar a análise mais aprofundada no campo da disputa eleitoral, alertando que a reeleição do presidente Lula em 2026, embora provável no cenário atual, enfrenta ameaças poderosas.
Para Pomar, os Estados Unidos precisam controlar o Brasil para manter sua hegemonia na América Latina. Ele alerta que o governo americano já está interferindo no processo eleitoral brasileiro através de diversos canais, como as Forças Armadas, as Big Techs e a disseminação do medo.
O dirigente também critica a entrega de dados essenciais da população às plataformas digitais pelo governo federal, o que facilita a manipulação política por parte do imperialismo. Além disso, ele destacou que a disputa geopolítica e interna nos EUA fará com que eles incidam pesadamente na eleição brasileira de 2026.
A classe dominante e o coração em Miami
Segundo ele, a classe dominante brasileira — especialmente o agronegócio e o capital financeiro — mantém laços profundos com a dinâmica americana e trabalhará ativamente para derrotar a esquerda.
Pomar afirmou que, embora o governo Lula se esforce para atender esses setores, eles trabalharão ativamente para derrotar a esquerda, pois o risco de um enfrentamento com o imperialismo é inaceitável para quem prioriza o lucro. Para essa classe dominante, o “coração continua batendo por Miami”, independentemente das concessões feitas pelo governo.
O professor também advertiu contra a subestimação da extrema direita, afirmando que ela não é um “cadáver político” e mantém uma força de massa resiliente, com cerca de 35% de apoio. As disputas internas nesse campo podem, inclusive, ajudá-los a unificar forças em um eventual segundo turno.
Quanto à direita tradicional — que apoiou o golpe de 2016 e a prisão de Lula —, ele ressaltou que ela controla instituições como o Supremo Tribunal Federal (STF) e cobra um preço altíssimo por seu apoio, exigindo concessões como a política de déficit zero, o arcabouço fiscal e a moderação programática. No entanto, Pomar lembra que quem garantiu a vitória em 2022 não foram esses setores, mas a classe trabalhadora, especialmente os pobres, jovens, negros e habitantes da região Nordeste.
‘Sentimento de crise’
Um ponto de convergência entre as falas de Juliane Furno e Valter Pomar é o paradoxo entre os indicadores macroeconômicos e a percepção popular. Pomar explica que as pessoas acumularam anos de piora de vida sob Temer e Bolsonaro, e pequenas melhoras atuais não recuperam esse prejuízo. Ele prevê uma disputa duríssima em 2026, com risco de redução da atividade econômica e a possibilidade de a extrema direita conquistar uma maioria qualificada no Senado, o que permitiria o controle sobre o Supremo Tribunal Federal.
Assim como Furno, ele defendeu que a tarefa da esquerda não deve ser apenas exaltar pequenos avanços econômicos, mas sim formular um projeto popular de ruptura anticapitalista. Para Pomar, é indispensável retomar a luta de massa e reformas estruturais concretas, como a reforma agrária, o fim da escala 6×1 e redução da jornada de trabalho, uma reforma tributária que taxe os ricos, para que um futuro mandato presidencial seja qualitativamente superior e capaz de enfrentar as raízes da desigualdade brasileira.