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É hora do governo Lula ganhar uma cara: a do Presidente Orquestrador


O que falta não é capacidade. Governos fracassam não porque fazem demais, mas porque fazem cada um por conta própria

Publicado: 03/03/2026

Operários (1933) - Tarsila do Amaral

Do GGN
Por Luís Nassif

As eleições de 2026 se darão com a mídia normalizando o perfil de Flávio Bolsonaro. A irresponsabilidade midiática está atingindo nível que ainda vai se equiparar à pior fase do jornalismo de esgoto da revista Veja.

Não é apenas a Folha afirmando que o brasileiro trabalha pouco por dar preferência ao lazer, ou o Estadão cedendo à sanha sionista de seu editorialista a manchetar que ninguém irá chorar pelas vítimas do Irã, no momento em que as notícias são de morte de dezenas de crianças e professores em uma escola bombardeada por Israel-EUA.

Agora, tratam de normalizar uma pessoa intrinsecamente ligada às milícias do Rio de Janeiro, envolvido com familiares do chefe do escritório do crime, com a morte de Marielle Franco, com as milícias de Rio das Pedras, com a prática de rachadinha, com processos nebulosos de enriquecimento.

Até onde vai a insensibilidade dos jornalões? Quando irão se dar conta de sua responsabilidade institucional perante o país? Não conseguiram entender que sua única estratégia de sobrevivência é como porta-vozes dos setores civilizados da sociedade.

O plano de metas

Esse pacto crime organizado-mídia-mercado exige uma estratégia que o governo Lula ainda não se deu conta.

Tem tudo à mão: 

  • possibilidades imensas para um salto da economia, com terras raras, energia verde, um bom sistema tecnológico, empresas estatais de bom porte, que escaparam à sanha destrutiva dos governos Temer e Bolsonaro.
  • uma estrutura social e econômica que permite grandes voos, com o sistema S, os institutos de pesquisa federeais, as universidades públicas, a Embrapii, o Sebrae, o cooperativismo, o MST.
  • Ministros com experiência de organizar atores sociais e econômicos em torno de planos de desenvolvimento, como Fernando Haddad.

Em 26 de abril do ano passado já dávamos a receita:

“Para organizar as informações, tem que haver poucas metas”. Como diz Simone Tebet, “cinco metas, que caibam na palma da mão”.

Toda comunicação social deveria consistir em divulgar essas metas. A partir daí, cada entrega iria sendo enquadrada em cada uma das metas propostas, tijolo a tijolo, passando ao público a noção de uma obra maior, um trabalho conjunto de recriação do futuro.

Hoje em dia há três Ministérios trabalhando nesse formato: o do Orçamento e Planejamento, de Tebet, o da Transição Energética, de Fernando Haddad, e a Nova Indústria Brasil, de Geraldo Alckmin”.

No dia 2 de maio de 2024 mostramos todas as possibilidades abertas pela nova economia:

Ambos entenderam algo simples — e esquecido:

mercados funcionam melhor quando o Estado coordena expectativas.

A lição esquecida

O Brasil de hoje se parece mais com o pré-JK do que com o JK.

E o mundo atual se parece mais com 1933 do que muitos admitem.

A diferença é que:

  • as instituições já existem,
  • a tecnologia facilita a coordenação,
  • o capital humano é maior.

O que falta não é capacidade.

É coragem política para coordenar.

Ou, em versão menos acadêmica:

governos fracassam não porque fazem demais,

mas porque fazem cada um por conta própria.

O governo orquestrador

Vou repetir, aqui, artigo publicado no Projeto Brasil sobre o governo orquestrador:

Dá para fazer muita coisa — e rápido — quando o governo para de tentar reinventar a roda e passa a alinhar as engrenagens que já existem no Brasil. O país não sofre de falta de instituições; sofre de descoordenação crônica. Eis um mapa do que é possível fazer agora, com o que já está aí:

1. Desenvolvimento produtivo sem criar novos ministérios (milagre possível)

Quem já existe

  • BNDES, Finep, Embrapii
  • SENAI, SENAC, SENAR
  • Sebrae, Apex
  • Universidades federais, IFs
  • Bancos públicos (BB, CEF, BNB, Basa)

O que pode ser feito

  • Programas nacionais por cadeia produtiva (não por setor genérico):

    -> alimentos processados, fármacos, defesa, mobilidade elétrica, agroindústria, economia do cuidado
  • Crédito + tecnologia + compras públicas num único pacote
  • Contratos de desempenho com metas claras (exportação, emprego, inovação)

Resumo: o Estado deixa de ser caixa eletrônico e vira orquestrador.


2. Segurança pública: menos bravata, mais inteligência integrada

Quem já existe

  • PF, PRF, polícias civis e militares
  • Coaf, Receita Federal
  • CNJ, MP, Detrans, guardas municipais

O que pode ser feito

  • Centros integrados regionais de inteligência financeira + criminal
  • Força-tarefa permanente contra lavagem de dinheiro local (jogo, milícia, tráfico, grilagem)
  • Banco único de dados operacionais (com controle judicial)

Resumo: crime organizado odeia integração. Vive de silo.


3. Saúde: SUS com cérebro digital

Quem já existe

  • SUS, Fiocruz, Butantan
  • Datasus, Anvisa
  • Universidades e hospitais públicos

O que pode ser feito

  • Prontuário nacional interoperável (já tecnicamente viável)
  • Produção local de insumos estratégicos com compras públicas garantidas
  • Rede nacional de vigilância epidemiológica em tempo real

Resumo: o SUS já é gigante — falta coordenação tecnológica, não discurso.


4. Educação e trabalho: parar de formar desempregados sofisticados

Quem já existe

  • MEC, IFs, SENAI/SENAC
  • Sistema S
  • Universidades públicas
  • Ministérios do Trabalho e da Indústria

O que pode ser feito

  • Pactos regionais: formação ligada a projetos produtivos reais
  • Cursos técnicos conectados a compras públicas e crédito
  • Reconversão profissional contínua (IA, energia, logística, saúde)

Resumo: diploma sem demanda é só papel bonito.


5. Infraestrutura: usar o Estado para destravar, não substituir

Quem já existe

  • DNIT, EPL, Infra S.A.
  • TCU, BNDES
  • Estatais e concessionárias

O que pode ser feito

  • Projetos padronizados e replicáveis (menos obra “artesanal”)
  • Coordenação entre União, estados e municípios para licenciamento
  • Planejamento logístico integrado (ferrovias, portos, energia)

Resumo: atraso não é falta de dinheiro — é excesso de atrito.


6. Meio ambiente e economia: parar de tratar como inimigos

Quem já existe

  • Ibama, ICMBio
  • Embrapa
  • Universidades
  • Cooperativas e povos tradicionais

O que pode ser feito

  • Bioeconomia amazônica com crédito, assistência técnica e mercado garantido
  • Rastreabilidade obrigatória (já existe tecnologia)
  • Valorização econômica de quem preserva

Resumo: floresta em pé precisa modelo de negócios, não só discurso moral.


7. Democracia e instituições: coordenação é proteção

Quem já existe

  • STF, TSE, CNJ
  • CGU, TCU
  • MP, Defensorias
  • Universidades e imprensa

O que pode ser feito

  • Protocolos institucionais contra desinformação e ataques coordenados
  • Transparência ativa e dados abertos integrados
  • Educação midiática e institucional permanente

Resumo: democracia não se defende sozinha — precisa engenharia.


A virada de chave

O Brasil não precisa de mais estruturas. Precisa de:

  • coordenação,
  • metas claras,
  • integração institucional,
  • liderança política com visão de sistema.

Ou, em termos menos diplomáticos:

  • menos improviso, menos vaidade, menos silo.

O material já existe. Falta só alguém juntar as peças — como num Lego institucional gigante. 



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