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Estudo aponta que envelhecimento do sistema imunológico está associado a casos graves de covid

Fonte: Brasil de Fato
01/12/2021



  • Pesquisadores detectaram sinais de hiperatividade, exaustão e envelhecimento de células de defesa do corpo em pacientes hospitalizados por covid-19 - Barbara Gindl / APA / AFP

 

Brasil de Fato

Um novo estudo liderado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), publicado na revista científica Journal of Infectious Diseases, principal revista do planeta especializada em pesquisas sobre doenças infecciosas, identificou que casos graves de covid-19 estão associados a um processo de envelhecimento do sistema imunológico e imunodeficiência aguda. 

Os pesquisadores detectaram sinais de hiperatividade, exaustão e envelhecimento de células de defesa conhecidas como “linfócitos T auxiliares” quando analisaram amostras de sangue de pacientes hospitalizados pela doença. De acordo com os cientistas, os dados indicam perda da capacidade de resposta dessas células quando a covid-19 se apresenta no estado grave, o que pode facilitar infecções secundárias e reinfecções.

O coordenador do estudo, Alexandre Morrot, professor da Faculdade de Medicina da UFRJ e pesquisador do Laboratório de Imunoparasitologia do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), explica que os “linfócitos T auxiliares” atuam como maestros do sistema imune no combate à infecção. Segundo ele, essas células reconhecem as proteínas virais e ativam as células de defesa responsáveis por combater o vírus e produzir anticorpos.

De acordo com o pesquisador, nos pacientes com covid-19 grave, observou-se que os “linfócitos T CD4 [auxiliares]” estão em estágio final de diferenciação, apresentando marcadores de exaustão e senescência (processo de envelhecimento). São células que perderam a capacidade de expansão clonal, ou seja, não vão se multiplicar ao entrar em contato com as proteínas virais e não vão conseguir comandar uma resposta imunitária eficiente.

Segundo o professor, o quadro pode ser caracterizado como um estado de imunodeficiência aguda. A queda na imunidade deixa os indivíduos mais vulneráveis para contrair outras infecções, como as pneumonias bacterianas, que são comuns em pacientes hospitalizados por covid-19.

Reinfecções

A imunodeficiência aguda também ajuda a explicar um fenômeno que tem chamado a atenção na pandemia: as reinfecções. Desde o começo da emergência de saúde pública, registros de indivíduos reinfectados, mesmo após casos graves de covid-19, surpreenderam os cientistas. Isso porque infecções virais agudas costumam produzir uma memória imunológica forte, que evita, por exemplo, que a mesma pessoa contraia sarampo ou catapora duas vezes.

“A reinfecção ocorre em uma fração pequena dos casos, mas é mais comum do que seria esperado. A disfunção das células T CD4 [auxiliares] pode explicar a ausência de memória imunológica de longo prazo na covid-19 grave”, avalia Alexandre.

O estudo

A pesquisa comparou amostras referentes a 22 pacientes internados com casos graves de covid-19 com amostras coletadas de indivíduos saudáveis. Além da presença de moléculas consideradas como marcadores de envelhecimento e exaustão nos “linfócitos T auxiliares”, os pesquisadores encontraram altos níveis de substâncias inflamatórias liberadas por essas células no soro dos pacientes.

Segundo os cientistas, os dados indicam um processo de hiperativação, que leva os linfócitos ao estágio final de diferenciação celular, resultando em exaustão e envelhecimento do sistema imunológico.

“Tudo isso reforça a importância de terapias anti-inflamatórias, voltadas para controlar a resposta imune exagerada, que é uma vilã na covid-19”, acrescenta Alexandre.

As análises contemplaram apenas a fase aguda da infecção. Assim, não é possível apontar se haverá prejuízo para o sistema imunológico dos pacientes no longo prazo.

“A covid-19 ainda é uma doença nova e não sabemos como será a sua evolução. A literatura científica indica que células exauridas podem recuperar sua função. Já as células senescentes podem morrer e ser substituídas por células jovens. É possível que alguns meses após a doença, os pacientes não apresentem mais essas alterações, mas isso terá que ser acompanhado”, pondera o pesquisador.

Pesquisa e financiamento

Além da UFRJ e da Fiocruz, participaram da pesquisa o Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz), Hospital Naval Marcílio Dias, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Universidade Federal Fluminense (UFF) e Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro). O artigo foi dedicado à pesquisadora Juliana de Meis, da Fiocruz, que faleceu em julho, devido à covid-19.

O estudo foi financiado pelo programa Inova Fiocruz, pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e pelo Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul (Focem). A pesquisa foi desenvolvida no âmbito do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Neuroimunomodulação (INCT-NIM) e da Rede de Pesquisa em Neuroinflamação do Rio de Janeiro.

*Com informações da UFRJ e Fiocruz
 

Fonte: BdF Rio de Janeiro

Edição: Jaqueline Deister

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