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Militares criaram um “Projeto de Nação” para 2035 nos moldes da ditadura

Fonte: GGN
23/05/2022



  • Foto: Antônio Cruz

Setores militares publicaram uma proposta que prega o governo militar no Brasil até 2035, um aparato de estrutura “político-estratégica” nos moldes da ditadura e uma série de medidas, como o fim da gratuidade do SUS (Sistema Único de Saúde) em 2025.

Trata-se do “Projeto de Nação – O Brasil em 2035”, de 93 páginas, assinado por três organizações militares e que contou com um evento especial de lançamento, na última quarta-feira (19), em Brasília.

Em coluna ao Estadão, o repórter Marcelo Godoy narrou que o evento contou com a apresentação pelo Regimento de Cavalaria de Guardas da música “Eu Te Amo, Meu Brasil”, a mesma que tocava durante os anos 70 para celebrar a ditadura do regime militar no país.

O evento e documento de lançamento do que narram que será o Brasil daqui a mais de uma década foram uma articulação de militares do Instituto Villas Bôas, do Instituto Sagres e Instituto Federalista.

MILITARES QUE CRIARAM O PLANO

Um dos autores e lideranças desse projeto, Luis Eduardo Rocha Paiva, é o diretor do Instituto Sagres. Ele foi presidente do grupo “Terrorismo Nunca Mais” (Ternuma), criada pelo torturador da ditadura Carlos Alberto Brilhante Ustra.

O Instituto General Villas Bôas (IGVB) é do ex-general do Exército Eduardo Villas Bôas, ex-comandante do Exército, que durante o golpe contra Dilma Rousseff no processo de impeachment escancaradamente incitou a queda da ex-presidente e também ameaçou o STF (Supremo Tribunal Federal) em 2018, quando julgou o Habeas Corpus de liberdade a Lula.

“Em um ambiente eivado de patriotismo, ontem à noite, no auditório da FHE-POUPEx, foi lançado o ‘Projeto de Nação’. O trabalho atendeu a uma demanda abrangente de anos”, escreveu o general, que segue como conselheiro próximo de Jair Bolsonaro.

Escancaradamente retornando a bandeiras da ditadura misturadas com teor neoliberalista, o coordenador do evento, Rocha Paiva, afirmou que o documento é “apartidário, aberto e flexível” e que servirá “mesmo que haja mudança de governo”, exceto a esquerda, que segundo ele “vai jogar fora”.

APARATO “POLÍTICO-ESTRATÉGICO”

Em previsões futurísticas, o documento dos militares fala que supostos avanços serão obtidos pelo Brasil graças a um autodenominado “Centro de Governo”, formado pelas organizações militares e civis que apoiam este plano, que criarão uma “Estratégia Nacional (EN)” em “meados da década de 2020”.

Este Centro de Governo, segundo os militares, “foi um dos fatores que possibilitou ao Brasil ingressar na OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), em meados da década de 2020”. O Brasil não é membro da OCDE.

Também haverá, segundo este plano, um “Sistema Integrado de Gestão Estratégica (SIGE-BR)” para implementar a “Estratégia Nacional (EN)”. O nome remete aos sistemas de informação e segurança do aparato da ditadura do regime militar.

E a sua função seria:

“Oferecer orientações e claras linhas mestras de atuação, com apoio de técnicas e ferramentas (…). Com ela, o CdG tem trabalhado para monitorar os cenários prospectivos e a evolução diária e imediata da conjuntura, assessorando o mais alto nível de governo em face das ameaças e oportunidades.”

Sem apresentar nenhum tipo de pesquisa ou consulta pública realmente efetivada, o documento afirma que “essa nova estrutura político-estratégica — EN, CdG e SIGE-BR — foi desenhada com o perfil desejado pela maioria da população brasileira, que se fez ouvir não somente em manifestações de grande magnitude, mas principalmente nas urnas, em sucessivos períodos eleitorais.”

CONSERVADORES EVOLUCIONISTAS LIBERAIS

Ainda na introdução do “Projeto de Nação”, determina que “os cidadãos brasileiros, em sua maior parte, identificam-se como Conservadores evolucionistas, no campo psicossocial, e Liberais, porém, conscientes da responsabilidade social de apoiar, com políticas públicas sustentáveis, as camadas carentes da sociedade.”

Defesa Nacional, geopolítica, economia, Amazônia e diversos pontos são tratados no documento. Chama o globalismo de “movimento internacionalista” de “imposições de caráter autoritário, porém disfarçados como socialmente corretos e necessários”.

O globalismo, segundo eles, é controlado pela “elite financeira mundial, ator não estatal constituído por megainvestidores, bancos, conglomerados transnacionais e outros representantes do ultracapitalismo”.

O artigo publica que supostamente em 2035 será “visível a união de esforços entre determinadas entidades nacionais e o movimento globalista, inclusive com o apoio de relevantes atores internacionais, visando a interferir nas decisões de governantes e legisladores, especialmente em pautas destinadas a conceder benesses a determinadas minorias, em detrimento da maioria da população, a exercer ingerência em nosso desenvolvimento econômico, usando pautas ambientalistas a reboque de seus interesses e não pela necessária preservação da natureza, e a provocar crises que enfraquecem a Nação em sua busca pelo desenvolvimento.”

FIM DA GRATUIDADE DO SUS E EDUCAÇÃO

Contraditoriamente, após criticar o “ultracapitalismo”, o documento defende que a classe média pague pelo atendimento no SUS a partir de 2025. O projeto sistematiza pontualmente como isso deve ser feito:

“Além disso, a partir de 2025, o Poder Público passa a cobrar indenizações pelos serviços prestados, exclusivamente das pessoas cuja renda familiar fosse maior do que três salários mínimos.”

No campo da educação, além de também querer cobrar as mensalidades de acesso às universidades públicas – em mais uma medida de atuação neoliberal -, prega por “currículos desideologizados”, “reforçando valores morais, éticos e cívicos”.

“Não se trata de uma vã tentativa de adivinhar o futuro — até porque isso é impossível – mas sim de um exercício baseado em métodos consagrados para: alargar os mapas mentais; visualizar as principais tendências e suas possíveis rupturas; identificar ameaças e oportunidades; e propor medidas para a construção do melhor futuro possível. (…) Bem-vindo ao futuro e boa leitura!”, traz o documento.

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