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Nas eleições 2026, o 8 de janeiro deve ser tema restrito e candidatos focarão em economia e segurança pública, apontam especialistas


Emprego, inflação e violência devem mobilizar a campanha; as questões sobre democracia não são prioridade do eleitor

Publicado: 08/01/2026

Atos golpistas de 8 de janeiro - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Do Brasil de Fato

Nesta quinta-feira (8), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participa de uma cerimônia no Palácio do Planalto para marcar os três anos do 8 de janeiro, quando apoiadores de Jair Bolsonaro (PL), invadiram e depredaram os prédios dos Três Poderes em Brasília pedindo um golpe de Estado em 2023.

Além da cerimônia, o tema da trama golpista deve ser explorado nas campanhas eleitorais para a Presidência da República neste ano em duas frentes. De um lado, entre os candidatos da esquerda, como bandeira em defesa da democracia e do Estado de Direito. De outro, pelos nomes da direita, a partir da narrativa de perseguição política, sobretudo diante do desfecho dos julgamentos e condenações aos envolvidos na tentativa de golpe.

O assunto, porém, não deve ser majoritário nas campanhas. A avaliação é que o tema esfriou e que outras questões devem ganhar predominância. Marcelo Vitorino, consultor de marketing político e professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), avalia que a disputa eleitoral tende a se organizar a partir de temas ligados à economia e à segurança, assuntos que se conectam na forma como o eleitor percebe o cotidiano. “Emprego, inflação, custo de vida, violência. É isso que define voto”, afirma.

Um levantamento divulgado pela AtlasIntel em parceria com a Bloomberg em dezembro do ano passado reforça a análise do docente. A corrupção aparece como a principal preocupação nacional, citada por 64,7% dos entrevistados, com ampla vantagem sobre os demais temas. Na sequência, criminalidade e tráfico de drogas são apontados por 61%. Economia e inflação surgem em terceiro lugar, com 20,3%. Extremismo e polarização política aparecem na quarta posição, com 18,2%, enquanto o enfraquecimento da democracia figura apenas na sexta colocação, com 16,4%.

Na leitura do consultor, os episódios de 8 de janeiro cumprem um papel restrito ao engajamento de grupos politizados e não alcançam quem acompanha a política de forma esporádica. “O 8 de janeiro funciona como narrativa para militância, não para o eleitorado disperso. A verdade é que a maioria das pessoas até hoje não entendeu direito o que aconteceu naquele dia. Foi golpe? Foi baderna? Foi armação? Cada bolha tem sua versão, e o cidadão comum não acompanhou o suficiente para formar convicção”, defende. Para parte do público, diz, o episódio é visto como “briga entre dois lados que não representam ninguém”.

Diante disso, Vitorino considera que a exploração do tema ao longo da campanha depende das circunstâncias. Caso a economia apresente índices negativos, Vitorino afirma que o assunto pode ser acionado como estratégia discursiva. Ainda assim, ressalta que, “como eixo central de campanha, não se sustenta”.

Na mesma linha, segundo Leonardo Martins Barbosa, doutor em Ciência Política e pesquisador do Centro de Imaginação Crítica do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CCI-Cebrap), a narrativa de união em defesa da democracia contra o bolsonarismo já não tem a mesma centralidade observada na última eleição presidencial. “Eu não tenho certeza se essa concertação em torno da democracia vai ser novamente, como foi em 2022, a pauta central do governo nas eleições. Eu acho que deu uma enfraquecida”, afirma Barbosa.

A estratégia adotada em 2022 foi decisiva para viabilizar a formação de uma frente ampla, com a incorporação de setores historicamente distantes do PT, o que teve peso relevante no resultado eleitoral. O cenário atual, no entanto, marcado pela condenação de Jair Bolsonaro (PL) e de militares de alta patente, sinaliza uma inflexão importante no debate político e institucional. Para o pesquisador, esse desfecho da trama golpista impõe limites à coalizão formada naquele pleito. Nesse sentido, avalia que “houve um certo esgotamento da aliança que se formou em 2022”, o que lança dúvidas sobre a capacidade dessa mesma composição sustentar uma nova vitória nas urnas.

Barbosa observa que outras agendas vêm ganhando tração no debate público, como o discurso de soberania nacional e as críticas ao alinhamento internacional do bolsonarismo. “Acho que a questão do Bolsonaro preso vai ser muito explorada. Mas talvez outras pautas vão avançar um pouco mais. O fato de o Eduardo Bolsonaro estar articulando contra o Brasil e o tipo de comportamento do Trump na América do Sul, que é apoiado pelos bolsonaristas, estão começando a ganhar um relevo um pouco maior. Eu acho que um indício disso é a mudança de slogan do governo federal, ‘do lado do povo brasileiro’ no lugar de ‘união e reconstrução’”, afirma Barbosa. 

E na direita?

Do outro lado do espectro político, Leonardo aponta que a direita enfrenta dificuldades para construir uma saída eleitoral viável. Segundo ele, há uma tensão entre a defesa do bolsonarismo, empenhado em sustentar a narrativa de que não houve tentativa de golpe e de que existe perseguição injusta, e a direita associada ao centrão, especialmente PP e União Brasil, que também ensaiam a construção de uma candidatura de oposição.

No ano passado, o ex-presidente Jair Bolsonaro assinou um cheque para a pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro como estratégia para manter a família no jogo político e preservar capital eleitoral, ainda que o parlamentar não demonstre força suficiente para liderar uma coalizão ampla com chances reais de vitória presidencial. Nesse contexto, nomes como o do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), aparecem com vantagem por dialogar com setores menos alinhados ao bolsonarismo, mas enfrentam dificuldade para atrair a base mais mobilizada da direita.

“É uma tarefa muito difícil para a direita conseguir lançar uma candidatura que não tenha o radicalismo do bolsonarismo, mas consiga, ao mesmo tempo, abocanhar a mobilização deles. Essa é a pergunta de um milhão de reais que eles não estão conseguindo responder até agora”, afirma.

Paralelamente, na avaliação de Marcelo Vitorino, a saída para a direita caminha também para o distanciamento da imagem de radicalismo e em direção a uma agenda propositiva. Ele afirma que pautas ligadas a valores morais, defesa da família e programas de desenvolvimento tendem a dialogar com o eleitor conservador sem associar esse campo político a uma postura “golpista”.

Segundo o consultor, existe uma diferença clara entre o núcleo mais fiel ao bolsonarismo, que “quer briga com o sistema”, e um eleitor conservador mais ao centro, interessado em ordem, previsibilidade e em um projeto de país que tenha impacto concreto em sua vida. Para ele, o desafio da direita está em conseguir falar com esse segundo grupo sem romper com o primeiro, o que permitiria resolver o impasse estratégico.

“O caminho é focar menos em “nós contra eles” e mais em “o que vamos construir”. Menos STF, mais escola. Menos Moraes, mais segurança. O eleitor médio não acorda pensando em anistia. Acorda pensando em conta de luz e preço do mercado. Quem entender isso primeiro larga na frente”, afirma.

Ações do STF e do TSE

Um dos temas que liga o 8 de janeiro às eleições deste ano é a propagação da desinformação, utilizada amplamente para mobilizar a base bolsonarista em torno das narrativas golpistas. Desde então, o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) coordenaram um conjunto de medidas normativas, administrativas e tecnológicas visando o pleito de 2026.

Sob a gestão do ministro Luís Roberto Barroso, o STF estruturou o Programa de Combate à Desinformação com três eixos voltados à compreensão da desinformação, à redução de seu impacto e à recuperação da confiança social. O programa inclui estudos sobre fontes, circulação e financiamento de narrativas antidemocráticas, parcerias com setor privado e sociedade civil e ações de educação cidadã. 

O STF também julgou os Temas 987 e 533 de Repercussão Geral em junho de 2025 e redefiniu a aplicação do artigo 19 do Marco Civil da Internet. A corte declarou a inconstitucionalidade parcial do dispositivo e afastou a lógica segundo a qual plataformas só respondiam após ordem judicial. 

O entendimento fixou que empresas digitais têm o dever de agir de forma preventiva diante de conteúdos ilícitos. O julgamento estabeleceu quatro níveis de responsabilidade e autorizou o TSE a detalhar essas obrigações para as eleições de 2026. A decisão alinhou a regulação brasileira a modelos internacionais, como o Digital Services Act (DSA) da União Europeia, e determinou a remoção imediata de conteúdos relacionados a desinformação, uso de robôs e ataques ao Estado Democrático de Direito. 

O TSE, por sua vez, aprovou a Resolução nº 23.732 de 2024 para regular o uso de inteligência artificial na propaganda eleitoral e reduzir riscos informacionais em 2026. A norma alterou regras de campanha e proibiu o uso de deepfakes que simulem imagem ou voz de pessoas para influenciar candidaturas, com previsão de cassação de registro ou mandato e responsabilização penal. 

A resolução determinou que conteúdos eleitorais que utilizem inteligência artificial tenham identificação ao público, vedou o uso de chatbots para simular interação com eleitores e impôs às plataformas digitais a retirada imediata de conteúdos antidemocráticos ou de ódio, sob pena de multa diária.

Para as eleições de 2026, o TSE também estruturou mecanismos de monitoramento e denúncia de desinformação com participação da população. O Sistema de Alerta de Desinformação Eleitoral (Siade) permite o envio de denúncias sobre conteúdos que afetem o processo eleitoral, a atuação das instituições, a segurança de integrantes da Justiça Eleitoral e informações sobre votação. 



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