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‘O poder da arte importa. A esquerda precisa reconhecer isso e ir pra ofensiva’, aponta especialista após show de Bad Bunny no Super Bowl


Amanda Harumy analisa ainda o aumento das sanções do país a Cuba; correspondente do BdF na ilha conta sobre mobilização para show do cantor de Porto Rico

Publicado: 12/02/2026

Do Brasil de Fato 

Décadas de bloqueio não foram suficientes para preparar Cuba para o que vem ocorrendo nas últimas semanas. O governo de Donald Trump endureceu o cerco econômico contra a ilha com uma medida de alcance inédito: impedir que qualquer país forneça petróleo e combustível a Cuba, sob ameaça de sanções. A ofensiva, que já havia sido testada no sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro em janeiro, agora asfixia a população cubana em seu cotidiano.

O correspondente do Brasil de Fato em Havana, Gabriel Vera Lopes, acompanha de perto o agravamento da crise. “A vida em Cuba tem 60 anos de bloqueio, então não é novidade para o povo cubano ter que se adaptar a diversos tipos de agressão. Mas esta é mais agressiva, não tem precedentes”, afirmou ao podcast O Estrangeiro da Rádio Brasil de Fato.

O impacto é imediato e visível. “O transporte público ficou muito mais magro, teve que ser interrompido por alguns dias e agora volta a funcionar aos poucos. A mobilidade dentro da cidade é bem difícil.” As universidades cancelaram as aulas presenciais e se reorganizam para levar o ensino aos bairros. “Há dias com trabalho, dias sem trabalho. As empresas e ministérios fecham. A exceção é o sistema público de saúde e a educação, que tentam ser o menos atingidos possível”, relatou.

A pesquisadora Amanda Harumy, doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina (Prolam-USP), contextualiza a ofensiva dentro de um pacote de ataques à América Latina. “Cuba e Venezuela são referências de processos revolucionários, socialistas. A partir do momento que tivemos a invasão e o sequestro de Maduro, toda a correlação de forças mudou, e Cuba sentiu rapidamente.”

Harumy aponta o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio — “inimigo declarado do governo cubano, com rancor pessoal à revolução” —, como arquiteto da estratégia. “Ele orquestra esse ataque primeiro contra a Venezuela, depois impedindo que a Venezuela envie os 35 mil barris de petróleo que enviava a Cuba, e também que a presidenta Claudia Sheinbaum, do México, continue colaborando. A intenção é sufocar a ilha, impedir fisicamente que chegue energia, mas também sufocar a vitalidade do processo político.”

Diante do cenário, Cuba opera em duas frentes: uma de curto e outra de longo prazo, explica Gabriel Vera Lopes. No imediato, o fortalecimento do poder popular. “Há reuniões do pessoal da saúde, dos estudantes, trabalhadores, camponeses — todos os espaços da sociedade — para pensar um plano conjunto entre governo, Estado e organizações de massas para resistir.”

No médio e longo prazo, a aposta na soberania energética e na diplomacia. “Cuba avança na transição energética. Em um ano, passou de 3% para 10% de uso de energias limpas, com painéis solares. Pode chegar a 25% este ano. Mas precisa garantir os outros 75%”, detalhou o correspondente. Uma das saídas é tentar viabilizar o petróleo pesado produzido na própria ilha — para isso, foi criado um comitê científico de urgência.

Na arena diplomática, Cuba conta com aliados históricos. A presidente do México, Claudia Sheinbaum, anunciou o envio de ajuda humanitária. A China financia a instalação de painéis solares. Mas é o Vietnã que emerge como parceiro estratégico de maior densidade. “Vietnã cresceu economicamente nos últimos anos e agora, com mais força, amplia a ajuda a Cuba“, disse Gabriel. “É o único país com investimento direto na produção de alimentos em Cuba, e também vai ajudar na transição energética. Há uma solidariedade dos povos muito importante.”

“O Brasil deveria ser solidário ao México e se posicionar. Se tivéssemos dois grandes países latino-americanos dando a linha política, diríamos: ‘na minha região, eu dou conta de resolver os problemas energéticos, de soberania e de paz de Cuba'”, declara Harumy.

Para a pesquisadora, o governo Lula — que reativou a Celac e a Unasul em discurso, mas sem avanços concretos — pecou ao não entender o papel estratégico da integração regional. “A soberania da América Latina mudou em 3 de janeiro, e o Brasil não reivindicou a integração.”

O inimigo na Casa Branca e a esperança na cultura

Gabriel Vera Lopes observa que, dentro de Cuba, há quem veja o atual momento como “mais do mesmo”, mas uma leitura majoritária compreende a diferença de contexto. “É um mundo muito mais hostil para projetos políticos como Cuba. Os Estados Unidos têm maior capacidade de dano porque não há setores contrários à hegemonia americana com vontade política e capacidade de colocar freio neles.”

Harumy concorda e aposta na contradição interna dos EUA como possível anteparo. “O debate moral está em jogo. A perseguição ao latino, a ilegalidade do ICE, o caso Epstein — tudo isso expõe a elite estadunidense. Os democratas sabem disso e vão disputar essa agenda.”

Mas foi na cultura que a América Latina deu sua resposta mais contundente atual. A apresentação de Bad Bunny no Super Bowl, com seu grito de “América é o continente inteiro”, foi um bálsamo. “Foi uma vingança”, resumiu Gabriel. “Em Cuba, sem energia, os jovens se juntaram onde dava pra ver. Passavam pelos bares, restaurantes, e viam os cubanos juntos, olhando o cara falar verdades dentro do império.”

Para Harumy, o show foi uma ofensiva na batalha cultural. “O poder da arte importa. A esquerda precisa reconhecer isso e ir pra ofensiva. Bad Bunny colocou no palco do Super Bowl a América Latina e o Caribe, o dominó, os apagões, Cuba.”

Diante disso, a doutora do Prolam-USP projeta o futuro com otimismo histórico: “A América Latina será a potência do mundo — recursos hídricos, minerais raros, petróleo. Quem pode frear um império em queda? Uma nova conjuntura. E eu acredito na potência da América Latina, desde que numa perspectiva de unidade. Esse é o desafio para as próximas lideranças.”

Para ouvir e assistir

O podcast O Estrangeiro vai ao ar semanalmente às quartas-feiras às 15h, disponível nos canais do Brasil de Fato.



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