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Petroleiras estatais e o processo de desdolarização, a grande ameaça


Qualquer instabilidade em regiões estratégicas passa a ser enquadrada como ameaça civilizacional, e não como conflito econômico

Publicado: 06/01/2026

Do GGN
Por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Petróleo, dólar e reorganização da ordem monetária internacional

No pós-Segunda Guerra Mundial, o sistema monetário internacional foi estruturado a partir dos acordos de Bretton Woods, nos quais o dólar assumiu o papel de única moeda conversível em ouro. As demais moedas passaram a orbitar em torno dele. Nesse contexto, o petróleo era uma commodity estratégica como tantas outras, vital para a reconstrução industrial e para a expansão do consumo, mas sem qualquer função monetária. A busca pelo chamado ouro negro tinha como finalidade garantir suprimento energético, não lastrear riqueza ou servir de reserva de valor internacional.

Essa arquitetura entrou em colapso em dezembro de 1971, quando os Estados Unidos suspenderam unilateralmente a conversibilidade do dólar em ouro. A queda do padrão ouro abriu um vazio imediato no sistema de reservas internacionais. O dólar, privado de lastro metálico, viu-se ameaçado em sua função central como reserva de valor. Pela primeira vez desde o fim da guerra, o sistema capitalista internacional careceu de um equivalente geral estável.

Foi nesse interregno que ocorreu o primeiro choque do petróleo, em 1973. Ele não deve ser interpretado apenas como crise de oferta ou como evento conjuntural, mas como momento de transição monetária. Tornou-se claro que, para preservar o dólar como eixo do sistema, seria necessário ancorá-lo em outra mercadoria universal, indispensável e de demanda inelástica. O petróleo preenche exatamente esse papel. Consolida-se então o entendimento de que o petróleo passaria a ser precificado, negociado e recebido exclusivamente em dólares, criando uma demanda permanente pela moeda estadunidense.

O segundo choque do petróleo, em 1979, não inaugurou uma nova crise estrutural. Ele selou o novo arranjo. Funciona como um reajuste geral do sistema, quase um reset do fluxo de valores no capitalismo global. O dólar reapareceu garantido pelo controle do comércio mundial de energia.

A partir desse ponto, o modelo de extração e refino estatais nos países centrais tornou-se estruturalmente incompatível com a nova ordem. Empresas estatais integradas, operando do poço ao posto, são capazes de subordinar preços, contratos e moedas de recebimento a objetivos nacionais. Isso colide frontalmente com um sistema que exige liquidez absoluta, padronização contratual, financeirização e submissão ao circuito dólar e mercados de capitais.

A resposta foi a transformação das antigas petroleiras estatais em corporações privadas de capital aberto, com ações negociadas em várias bolsas do mundo, sempre avaliadas em dólares. Empresas como BP, Shell e Total ajustaram-se a esse paradigma não por opção ideológica, mas por necessidade política. A privatização eliminou a possibilidade de decisões soberanas sobre moeda de pagamento, política de preços e uso estratégico da integração vertical.

Com a consolidação do regime do petrodólar, a própria noção de riqueza das nações se transformou. A prospecção e a mineração de petróleo deixaram de ser apenas atividades voltadas ao suprimento energético e passam a representar uma antecipação de dólares futuros. Diferentemente de outros minerais, as reservas de petróleo só adquirem estatuto econômico pleno quando são medidas. Reservas estimadas ou inferidas não produzem o mesmo efeito, pois não podem ser imediatamente convertidas em fluxo financeiro antecipável.

Uma reserva medida de petróleo passa a ser funcionalmente equivalente à descoberta de uma nova mina de ouro. Não pelo valor físico do recurso, mas porque ela se converte em capacidade de antecipar valores no sistema financeiro internacional, seja por contratos de longo prazo, seja por endividamento lastreado na produção futura. O petróleo passa a operar como um ativo financeiro implícito, com o dólar como denominador obrigatório.

O efeito foi uma explosão global da prospecção petrolífera, concentrada de forma inédita no leito submarino, inaugurando a exploração em águas profundas. O caso do Mar do Norte é emblemático. Países até então secundários na geopolítica energética passam a ocupar posição central. O Reino Unido e os países nórdicos, em especial a Noruega, deixam de ser apenas importadores e tornam-se detentores de capacidade financeira soberana lastreada em reservas medidas. Processo semelhante ocorre no Alasca e, mais tarde, na África Ocidental.

Nesse contexto, um elemento crucial costuma ser negligenciado: a relação entre petróleo, petrodólar e a arquitetura monetária europeia. Países ricos em petróleo e gás, mesmo plenamente integrados ao projeto político europeu, optaram por não aderir ao euro. Essa decisão não pode ser explicada apenas por soberania cambial. Ela é, antes de tudo, monetária e geopolítica.

A adoção do euro implicaria, necessariamente, que o comércio intraeuropeu de energia fosse monetizado em euros. Para países exportadores de petróleo, isso significaria negociar parte relevante de sua produção fora do circuito do dólar, criando uma fissura interna no próprio arranjo do petrodólar. Tal movimento contrariava os interesses estratégicos dos Estados Unidos, que dependiam da exclusividade do dólar como moeda de liquidação do petróleo para sustentar seu papel como reserva de valor global.

A Noruega, integrada à União Europeia por meio do Espaço Econômico Europeu, mas fora da zona do euro, preserva sua moeda e mantém seus hidrocarbonetos plenamente inseridos no circuito dolarizado. O Reino Unido, mesmo antes do Brexit, jamais ingressou na união monetária, mantendo a libra esterlina e seu alinhamento financeiro com o sistema anglo-americano.

Essas escolhas ganham ainda mais sentido quando se considera a posição geopolítica desses países. Durante a Guerra Fria, eles faziam fronteira direta ou indireta com a União Soviética. No período posterior, passaram a integrar a linha avançada de contenção em relação à Rússia e ao seu entorno estratégico. Nessa condição, a compatibilidade monetária com o dólar assumia valor estratégico adicional, vinculando energia, finanças e segurança em um mesmo arranjo.

A arquitetura monetária europeia nasceu, assim, com uma assimetria estrutural. Países sem relevância energética aderiram ao euro e internalizaram suas regras fiscais e monetárias. Países detentores de reservas estratégicas de petróleo e gás preservaram suas moedas, evitando qualquer fricção com o sistema do petrodólar. O petróleo, longe de ser apenas uma commodity, revelou-se como o pilar da ordem monetária internacional.

Com o fim da Guerra Fria e a dissolução da União Soviética, os Estados Unidos se viram diante de um problema político interno e externo de grande monta. O antagonista que durante décadas justificara gastos militares, alianças estratégicas e intervenções no exterior simplesmente deixara de existir. No entanto, a lógica do sistema não se alterara. A necessidade de manter a centralidade do dólar, a previsibilidade dos fluxos energéticos e a disciplina sobre Estados produtores permanecia intacta. O que se extinguiu foi o enquadramento ideológico capaz de legitimar essas ações perante a opinião pública doméstica e perante aliados.

Foi nesse vazio que se substituiu do eixo do mal. A ameaça do comunismo foi gradualmente substituída por uma construção difusa, cultural e religiosa centrada no islã e, mais tarde, no terrorismo internacional. Essa mudança não corresponde a uma transformação estrutural do conflito, mas a uma reembalagem narrativa. O novo inimigo não é definido por um projeto econômico alternativo, mas por valores, costumes e identidades, o que permite uma elasticidade discursiva muito maior. Qualquer instabilidade em regiões estratégicas passa a ser enquadrada como ameaça civilizacional, e não como conflito econômico.

Essa fantasia ideológica cumpre dupla função. No plano interno, legitima intervenções externas contínuas em um mundo formalmente pacificado, preservando o complexo industrial-militar e o papel global das forças armadas. No plano externo, opera como instrumento de soft power, simplificando conflitos complexos em narrativas morais facilmente assimiláveis por aliados e pela opinião pública internacional. Direitos humanos, democracia e combate ao terrorismo tornam-se categorias mobilizáveis seletivamente, conforme a conveniência estratégica do momento.

O resultado é um deslocamento deliberado do debate. Questões centrais como controle de cadeias energéticas, estabilidade de preços, regimes de exploração e organização monetária internacional são retiradas do primeiro plano e substituídas por disputas identitárias e morais. O conflito deixa de ser apresentado como estrutural e passa a ser percebido como contingente, episódico e localizado, ainda que suas causas reais permaneçam inalteradas.

É somente após esse deslocamento ideológico que se torna possível enquadrar desafios monetários como ameaças à segurança internacional. Iniciativas que, em outros contextos, seriam tratadas como decisões soberanas de política econômica passam a ser interpretadas como atos hostis. O caso do Iraque, no início dos anos 2000, é exemplar. A decisão de aceitar euros pelo petróleo vendido no âmbito do programa petróleo por alimentos não representava uma ruptura volumétrica com o mercado mundial, mas tinha enorme valor simbólico. Ela introduzia a ideia de que o petróleo podia ser comercializado fora do circuito exclusivo do dólar, justamente em um momento em que os Estados Unidos buscavam reafirmar sua centralidade no sistema pós-Guerra Fria. A resposta não se deu no plano financeiro ou diplomático, mas foi absorvida pela narrativa de armas de destruição em massa, terrorismo e libertação democrática.

Processo semelhante ocorreu na Líbia. A proposta de criar um instrumento monetário africano lastreado em commodities, com destaque para o petróleo, não tinha viabilidade imediata como moeda global, mas ameaçava abrir um precedente perigoso. Ao sugerir que recursos energéticos pudessem sustentar arranjos financeiros regionais autônomos, essa iniciativa tocava diretamente no nervo do sistema do petrodólar. Mais uma vez, o conflito foi deslocado para o campo moral e humanitário, com a intervenção sendo apresentada como proteção de civis e promoção de valores universais, enquanto a reorganização do setor energético líbio avançava rapidamente após a queda do regime.

O mesmo padrão se repetiu no Irã. Sanções, isolamento financeiro e enquadramento permanente como ameaça à estabilidade regional não se explicam apenas por questões nucleares. Elas se relacionam com a persistência de um Estado produtor que mantém controle soberano sobre sua cadeia energética e que, em diferentes momentos, buscou mecanismos de troca e compensação fora do dólar. A insistência em tratar essas iniciativas como riscos existenciais reforça o entendimento de que o problema central não é ideológico, religioso ou mesmo militar, mas monetário.

Esses exemplos mostram que o combate à desdolarização do petróleo não se apresenta jamais como tal. Ele é sempre mediado por narrativas de segurança, moralidade ou civilização. A ideologia não cria o conflito, mas o torna administrável politicamente. Uma vez consolidado esse enquadramento, qualquer tentativa de alterar a moeda de denominação do petróleo pode ser tratada como ameaça à ordem internacional, independentemente de sua escala ou viabilidade econômica imediata.

A seguir, enfatizando a visão das empresas petroleiras estatais como ameaça ao império do dólar, apresentam-se uma taxonomia das empresas petroleiras em âmbito internacional, quanto à sua composição societária, acompanhada pelo padrão de comportamento do Império do Caos em função delas; em seguida, três exemplos de interferência estadunidense em países cuja relevância econômica e política são cruciais para o processo de desdolarização: Irã, Venezuela e Brasil.

Taxonomia das empresas petroleiras segundo a participação estatal

Para compreender o papel das empresas petroleiras nos conflitos associados ao petrodólar, é necessário abandonar classificações simplistas como estatal versus privada e adotar uma taxonomia funcional, baseada no grau de controle estatal e, sobretudo, na capacidade de cada empresa interferir no circuito financeiro dolarizado.

A primeira categoria é a das empresas petroleiras puramente estatais e integralmente integradas. Nelas, o Estado detém cem por cento do capital e exerce controle direto sobre toda a cadeia, da extração ao refino e à comercialização. Essas empresas podem subordinar preços, volumes, destinos e moeda de recebimento a decisões de política pública. Exemplos paradigmáticos são a Pemex, do México, a PDVSA, da Venezuela, e a NIOC, do Irã. Trata-se da categoria mais sensível do ponto de vista do petrodólar, pois concentra máxima soberania energética e monetária potencial.

A segunda categoria é a das empresas estatais puras, porém financeiramente isoladas ou sancionadas. Elas também pertencem integralmente ao Estado, mas operam sob restrições severas de acesso a mercados financeiros, tecnologia e comércio internacional. Embora mantenham controle soberano, sua capacidade de transformar reservas em antecipação de dólares é limitada por sanções ou bloqueios. A própria NIOC, em longos períodos, e a empresa estatal iraquiana em diferentes momentos do pós-2003 se enquadram nesse grupo. Aqui, o conflito com o petrodólar já não é apenas potencial, mas explícito.

A terceira categoria é a das empresas de capital aberto com controle estatal efetivo. São sociedades anônimas listadas em bolsas, com participação privada relevante, mas nas quais o Estado mantém controle acionário ou poderes decisórios suficientes para definir estratégias de longo prazo. O exemplo central é a Petrobras, do Brasil. Outros casos são a Equinor, da Noruega, e, com menor grau de controle, a ENI, da Itália. Essas empresas são toleradas pelo sistema do petrodólar porque pertencem a países alinhados à ordem monetária vigente e não utilizam o controle estatal para questionar a denominação do petróleo em dólares.

A quarta categoria é a das empresas formalmente privadas, mas historicamente associadas a interesses estatais dos países centrais. São corporações plenamente financeirizadas, sem participação estatal relevante, mas cuja atuação internacional é funcional à política externa de seus países de origem. Empresas como BP, Shell, Exxon e Chevron pertencem a esse grupo. Elas não dispõem de soberania monetária nem energética própria, mas operam como extensões econômicas da ordem internacional dominada pelo dólar.

A quinta categoria é a das empresas estatais parcialmente abertas, porém essencialmente soberanas. Nelas, a abertura de capital é limitada, simbólica ou restrita, sem perda de controle estratégico pelo Estado. A Saudi Aramco é o exemplo mais conhecido. Apesar da abertura parcial, a empresa continua operando como instrumento direto da política de Estado saudita, mas, diferentemente das empresas da primeira categoria, atua como pilar de sustentação do próprio regime do petrodólar, e não como ameaça a ele.

Essa taxonomia permite compreender que o fator decisivo não é a forma jurídica da empresa, mas a combinação entre controle estatal e alinhamento monetário. Empresas tornam-se problemáticas para a ordem internacional não por serem estatais em si, mas por concentrarem capacidade soberana de interferir na moeda de denominação do petróleo e, portanto, no mecanismo de antecipação de dólares.

A partir dessa base, fica possível analisar com precisão o segundo movimento, que é o padrão das intervenções estadunidenses. Elas não se dirigem indiscriminadamente a todas as empresas estatais, mas se concentram nas categorias que combinam controle soberano com potencial de contestação monetária. É esse padrão que passaremos a examinar a seguir, já não no plano tipológico, mas no histórico e geopolítico.

Uma vez estabelecida a taxonomia das empresas petroleiras segundo o grau de participação estatal e de alinhamento monetário, torna-se possível identificar padrões distintos de intervenção dos Estados Unidos, variáveis conforme a categoria em que cada empresa se insere. Não se trata de um repertório único de ações, mas de um conjunto graduado de instrumentos, aplicados conforme o risco sistêmico percebido em relação ao regime do petrodólar.

No caso das empresas puramente estatais e integralmente integradas, pertencentes a países que não apenas controlam sua cadeia energética, mas também demonstram disposição para operar fora do circuito financeiro dolarizado, a intervenção tende a ser direta e multifacetada. Ela combina sanções econômicas amplas, bloqueio de ativos financeiros, isolamento tecnológico, operações de deslegitimação política e, em casos extremos, ação militar aberta ou mudança de regime. O objetivo não é apenas constranger o governo, mas degradar a capacidade operacional da empresa estatal, reduzindo sua aptidão para transformar reservas em antecipação de valores. A empresa é tratada como alvo estratégico porque concentra a soberania energética e monetária potencial do Estado.

Quando se trata de empresas estatais puras, mas financeiramente isoladas ou já submetidas a regimes de sanção, a intervenção assume caráter mais administrativo e jurídico. O foco desloca-se para impedir acesso a financiamento, seguros, transporte, tecnologia e mercados consumidores. Nesses casos, o conflito deixa de ser latente e passa a ser explícito. A empresa é mantida funcionalmente ativa apenas no limite necessário para evitar colapsos regionais, mas incapaz de operar como agente soberano no sistema internacional.

Para as empresas de capital aberto com controle estatal efetivo, pertencentes a países alinhados ao regime do petrodólar, o padrão de intervenção é radicalmente distinto. Aqui, a ação estadunidense é indireta e preventiva. Ela se manifesta por meio de pressão regulatória, exigências de governança, disciplinamento via agências de risco, influência sobre fluxos de capitais e uso seletivo de instrumentos jurídicos extraterritoriais. O objetivo não é desestruturar a empresa, mas garantir que o controle estatal não seja convertido em instrumento de contestação monetária.

É nesse grupo que se insere o caso da Noruega, proprietária da Equinor. A especificidade norueguesa é fundamental. O Estado norueguês optou por aceitar integralmente o regime do petrodólar e canalizar sua soberania  para a gestão da renda petrolífera. O fundo soberano norueguês foi estruturado justamente para transformar receitas do petróleo, recebidas em dólares, em ativos financeiros globais. Com isso, o próprio bem-estar social do país passou a estar diretamente vinculado ao desempenho econômico da commodity e à estabilidade do sistema financeiro internacional.

Essa escolha tem implicações profundas. Ao atrelar aposentadorias, políticas sociais e equilíbrio fiscal ao rendimento do petróleo convertido em ativos financeiros, a Noruega internaliza o regime do petrodólar como fundamento de seu contrato social. Isso elimina qualquer incentivo estrutural para contestação monetária e torna a Equinor uma empresa plenamente aceitável dentro da ordem vigente, apesar do controle estatal. A soberania é exercida na alocação da renda, não na arquitetura monetária.

Situação distinta ocorre com empresas híbridas em países com menor peso geopolítico ou maior vulnerabilidade externa. Nesses casos, a intervenção assume a forma de vigilância permanente. O Estado é tolerado como acionista controlador apenas enquanto não ultrapassa certos limites implícitos, como tentativas de usar a empresa para política externa autônoma, acordos energéticos fora do circuito dolarizado ou redefinições do papel estratégico da companhia.

Por fim, no caso das empresas formalmente privadas dos países centrais, a intervenção praticamente não se faz necessária. Elas já operam organicamente alinhadas à lógica do sistema financeiro internacional, dependem integralmente de mercados de capitais dolarizados e não dispõem de instrumentos para exercer soberania energética ou monetária. Aqui, a disciplina é endógena ao próprio modelo de negócios.

Esse conjunto de padrões mostra que as intervenções não são arbitrárias nem motivadas por critérios morais ou ideológicos. Elas seguem uma lógica funcional clara, orientada pela preservação do mecanismo que transforma o petróleo em pilar informal do sistema monetário internacional. A intensidade, a forma e o discurso da intervenção variam conforme a posição da empresa e do Estado no interior dessa arquitetura.

Caso iraniano

O caso do Irã é o exemplo mais didático de como uma empresa petrolífera puramente estatal pode tornar-se alvo estrutural quando o regime do petrodólar é percebido como ameaçado. A indústria de hidrocarbonetos iraniana é organizada como braço direto do Estado, por meio de um conjunto de empresas estatais, com destaque para a National Iranian Oil Company, inteiramente pertencente ao governo e subordinada ao Ministério do Petróleo. Essa configuração concentra, no mesmo centro decisório, a capacidade de coordenar extração, exportação, refino e logística, e, portanto, de subordinar contratos e fluxos comerciais a decisões políticas, inclusive quanto a mecanismos de pagamento e compensação em contexto de sanções.

A partir do momento em que o Irã passa a ser tratado como um Estado revisionista do ponto de vista da ordem regional e monetária, o alvo real deixa de ser um governo específico e passa a ser a infraestrutura soberana que permite ao país transformar reservas medidas em fluxo financeiro. É por isso que o conflito assume caráter permanente e não episódico. O sistema de sanções não se limita a punir pessoas ou setores periféricos, mas incide sobre o coração do Estado rentista. Ao atingir exportações, navios, intermediários, portos, refino e seguros, as sanções procuram impedir que o petróleo iraniano se converta em receita plenamente mobilizável no sistema financeiro internacional, degradando a capacidade de antecipar valores e de sustentar políticas soberanas.

Nesse quadro, a controvérsia nuclear funciona como eixo de legitimação, não como explicação última. Em termos políticos, a pauta nuclear fornece a moldura moral e securitária necessária para que medidas que têm forte conteúdo econômico sejam vendidas como defesa da segurança internacional. O ponto decisivo é que essa moldura permite militarizar o conflito quando o cerco financeiro não produz o efeito esperado. Em junho de 2025, Israel iniciou uma operação militar de grande escala contra alvos no Irã, incluindo instalações e infraestrutura relacionadas ao programa nuclear e objetivos militares, com desdobramentos descritos como uma escalada sem precedentes recente entre os dois países.

A evolução institucional do próprio acordo nuclear reforça essa leitura. Nos anos seguintes à retirada dos Estados Unidos do JCPOA em 2018 e ao retorno de sanções, o acordo permaneceu em crise, com disputas sobre conformidade, inspeções e mecanismos de retomada automática de sanções, culminando na formalização do fim do acordo em outubro de 2025, segundo análises e reportagens internacionais. Na prática, quanto mais o eixo nuclear é mantido em permanente tensão, mais se justifica a perpetuação do regime de sanções que estrangula a renda petrolífera iraniana e impede a normalização de suas exportações.

O aspecto central, para o argumento do artigo, é que a militarização não é um desvio acidental, mas uma etapa do repertório quando se está diante de uma empresa petrolífera puramente estatal em um país que não aceita subordinação plena ao circuito dolarizado. A National Iranian Oil Company aparece como alvo indireto permanente porque é o instrumento pelo qual o Estado iraniano pode usar o petróleo não apenas como commodity, mas como alavanca de financiamento, de política externa e de construção de autonomia. A acusação nuclear, ao ser mobilizada como ameaça imediata, cumpre o papel político de tornar aceitável uma coerção que, no fundo, busca manter o Irã afastado da normalização energética e financeira e, por consequência, longe de qualquer capacidade de influir no circuito do petrodólar por meios próprios.

O caso da Venezuela

A história da exploração de petróleo na Venezuela foi longa, estrutural e decisiva para a compreensão não apenas da economia do país, mas também de sua trajetória política e de sua inserção no sistema internacional ao longo do século XX e do início do século XXI.

Muito antes do petróleo industrial, já se conhecia na Venezuela o mene, o betume natural que aflorava do solo e que povos indígenas utilizavam para calafetar canoas e para fins medicinais. Durante o século XIX, ocorreram tentativas artesanais e concessões pontuais, sem impacto econômico relevante. A economia venezuelana permanecia baseada no cacau e no café, inserida de forma periférica no comércio internacional. Desde o início, portanto, o petróleo não surgiu como projeto nacional deliberado, mas como oportunidade percebida por capitais externos.

O marco fundador da indústria petrolífera venezuelana ocorreu em 1914, com a perfuração do poço Zumaque I, no estado de Zulia, na bacia do Lago de Maracaibo. As reservas reveladas superaram largamente as expectativas e atraíram rapidamente grandes companhias estrangeiras. A partir daí, a Venezuela passou a ocupar posição central no mapa petrolífero mundial.

Entre as décadas de 1920 e 1940 consolidou-se o modelo concessionário clássico, sobretudo durante a ditadura de Juan Vicente Gómez. As concessões eram extensas, de longa duração, com royalties baixos e praticamente nenhuma exigência de transferência tecnológica ou de desenvolvimento industrial local. A produção cresceu de forma explosiva, a Venezuela tornou-se o maior exportador mundial de petróleo nos anos 1920 e o Estado passou a depender crescentemente da renda petrolífera. Em paralelo, a agricultura entrou em colapso e a economia deformou-se estruturalmente. Formou-se o padrão rentista que marcaria de modo duradouro a sociedade venezuelana.

A partir dos anos 1940 iniciou-se um processo gradual de afirmação do Estado sobre o setor. A Lei de Hidrocarbonetos de 1943 instituiu a divisão igualitária dos lucros entre empresas e Estado. O país passou a capturar parcela significativa da renda do petróleo, fortaleceu sua capacidade institucional e formou quadros técnicos nacionais. Em 1960, a Venezuela participou da criação da OPEP e assumiu papel central na geopolítica energética. Consolidou-se a noção de soberania sobre o subsolo, ainda que limitada e contraditória.

Foi justamente a partir desse momento que se manifestaram, de forma estrutural, os efeitos associados ao que a literatura econômica viria a chamar de doença holandesa. A renda petrolífera apropriada pelo Estado passou a substituir a base produtiva interna como fundamento do financiamento público e da dinâmica econômica. A entrada maciça de divisas valorizou a moeda local, desestimulou a produção agrícola e industrial e tornou racional a importação financiada pela própria renda do petróleo. O Estado deixou de depender de um pacto fiscal amplo com a sociedade e passou a operar como Estado rentista, enquanto a economia organizou-se crescentemente em torno da disputa pela redistribuição dessa renda.

Esse processo interno não pôde dissociar-se da transformação do sistema monetário internacional após o colapso de Bretton Woods.

Nesse sentido, a nacionalização do petróleo na Venezuela, ocorrida em 1976 com a criação da PDVSA, não pôde ser compreendida apenas como ato econômico interno. Ainda que o país continuasse a exportar petróleo para os Estados Unidos, a existência de uma grande empresa estatal fora do controle direto das corporações privadas ocidentais introduziu fissura estrutural no arranjo do petrodólar. A PDVSA nasceu tecnocrática, eficiente e integrada ao mercado internacional, mas sua natureza estatal preservou, ao menos em tese, a possibilidade de decisões soberanas.

Essa tensão permaneceu relativamente contida durante as décadas seguintes, sobretudo nos anos 1990, quando a chamada Apertura Petrolera reaproximou o setor venezuelano da generalizada lógica financeira internacional. Essa acomodação rompeu-se a partir de 1999, com a ascensão de Hugo Chávez e a retomada do controle político efetivo sobre a PDVSA. A reafirmação da soberania estatal sobre o petróleo reabriu, ainda que de forma potencial, a possibilidade de questionar a centralidade exclusiva do dólar nas transações energéticas. Isso foi suficiente para jogar a Venezuela no eixo do mal, aqui representado por um improvável narcoterrorismo. Não passava de um pretexto para justificar a eterna luta  do bem contra o mal que caracteriza a estrutura interna de poder dos Estados Unidos.

Nesse contexto, a extração forçada do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e de sua esposa do território venezuelano para os Estados Unidos, ocorrida na madrugada de 3 de janeiro de 2026, mesmo apoiando-se em uma lei interna do autoproclamado xerife do mundo, configurou sequestro internacional. Violaram-se a soberania venezuelana, a imunidade de chefe de Estado e princípios básicos do direito internacional público. O enquadramento dessas pessoas como criminosos comuns por tribunais estrangeiros não alterou a natureza do ato, apenas revelou a assimetria de poder que sustentou tal pretensão.

Esse expediente cumpriu dupla função. No plano interno dos Estados Unidos, forneceu-se ao eleitorado justificativa moral para o antagonismo, deslocando-se o conflito do campo monetário e geopolítico para o terreno do combate ao crime e da defesa humanitária. No plano externo, escancarou-se a ilegitimidade de sanções, bloqueios financeiros e tentativas de isolamento diplomático, sem que se explicitasse a verdadeira natureza do conflito, que residiu na ameaça estrutural representada por Estados que ousaram controlar soberanamente recursos estratégicos em sistema internacional, estatizando empresas petroleiras.

A história da exploração de petróleo no Brasil não pode ser entendida como uma sequência neutra de descobertas geológicas ou de decisões empresariais. Desde o início, ela se confunde com disputas sobre soberania, projeto nacional e, mais recentemente, com a arquitetura do poder monetário internacional.

Nas primeiras décadas do século vinte, predominou no país a visão de que o Brasil era essencialmente agrário e desprovido de petróleo em escala relevante. Essa leitura não se limitava ao campo técnico. Ela refletia um projeto de inserção internacional subordinado, no qual não caberia ao país disputar o núcleo energético da industrialização mundial. Nesse contexto, insistir publicamente na existência de petróleo no subsolo brasileiro podia ser interpretado como afronta política.

O caso de Monteiro Lobato é emblemático. Ao tentar provar, por meio de prospecção, a existência de petróleo em bacias sedimentares do interior paulista, Lobato confrontou diretamente a narrativa oficial. Sua prisão, ainda durante a Segunda Guerra Mundial, demonstra que, naquele período, falar em petróleo fora do discurso autorizado pelo Estado podia ser tratado como crime. A ideia só deixaria de ser ilícita quando passasse ao controle estatal.

A descoberta de petróleo no Recôncavo Baiano, em 1939, não altera imediatamente esse quadro. O campo de Lobato tinha importância econômica limitada, mas valor simbólico decisivo, pois desmontava a negação absoluta da existência de petróleo no Brasil. Ainda assim, a incorporação do petróleo como política de Estado ocorre de forma lenta e contraditória, acompanhando a própria transformação institucional do país.

No pós-guerra, o petróleo passa a ser compreendido como insumo estratégico. O slogan “O petróleo é nosso”, antes reprimido, é apropriado pelo segundo governo de Getúlio Vargas e convertido em bandeira oficial. A criação da Petrobras, em 1953, marca essa inflexão. O petróleo deixa de ser tabu e passa a ser fundamento de um projeto nacional, desde que explorado sob monopólio estatal.

Desde a origem, a Petrobras não se limita à extração. Forma quadros técnicos, internaliza conhecimento geológico, desenvolve engenharia própria e constrói uma cadeia produtiva integrada. Inicialmente concentrada em terra, sobretudo no Recôncavo Baiano, a empresa passa a investir de forma sistemática no conhecimento das bacias marítimas.

A ruptura política de 1964 não interrompe esse processo. Embora o regime militar tenha se instalado sob forte influência dos Estados Unidos e sob o discurso do combate ao comunismo, a oficialidade que assume o poder trazia a experiência concreta da Segunda Guerra Mundial. Essa vivência incluía a percepção direta da importância estratégica do petróleo, da logística e da autonomia energética. Por essa razão, o regime não desmonta a Petrobras. Ao contrário, acelera a formação de pessoal, fortalece centros de pesquisa e amplia a prospecção offshore.

Esse esforço culmina na descoberta da Bacia de Campos, que se tornaria o principal polo produtor do país por décadas. Paralelamente, surgem indícios relevantes na Bacia de Santos. Há aqui uma linha clara de continuidade técnica que, décadas mais tarde, permitiria a identificação e a exploração do pré-sal.

A descoberta do pré-sal, anunciada em 2006, representa uma ruptura de outra ordem. Não se trata apenas de grandes reservas, mas de reservas com alta produtividade, baixo custo marginal e longo horizonte de produção. Pela primeira vez, o Brasil passa a ocupar posição potencialmente relevante no equilíbrio energético global. O erro decisivo não foi técnico, mas político: o anúncio imediato ao mundo, antes de consolidar mecanismos de proteção institucional e geopolítica.

Esse anúncio ocorre em paralelo a movimentos de enorme alcance. O Brasil é membro fundador do bloco dos BRICS e, por iniciativa direta do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, propõe-se a criação de um banco próprio do grupo. O Novo Banco de Desenvolvimento nasce com o objetivo explícito de financiar projetos fora do circuito tradicional do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial e de estimular um mundo multimoeda.

Esses movimentos atingem o núcleo da ordem internacional vigente. O sistema do petrodólar não é uma convenção secundária, mas o esteio material do poder dos Estados Unidos. A hegemonia do dólar se sustenta no fato de que o petróleo, a mercadoria estratégica central da economia mundial, é negociado em dólares. Enquanto isso permanecer verdadeiro, os Estados Unidos podem emitir moeda, financiar déficits permanentes e sustentar sua projeção global de poder.

Essa realidade foi reconhecida de forma explícita pela própria liderança política estadunidense. Ao assumir seu segundo mandato, Donald Trump afirmou que, se os Estados Unidos perdessem a hegemonia do dólar, se tornariam um país de terceiro mundo. A frase não é hipérbole. Ela expressa a consciência de que negociar petróleo em dólares é condição essencial para a manutenção do poder estadunidense.

É nesse ponto que a Petrobras passa a ser percebida como ameaça estrutural. A mais perigosa ameaça ao petrodólar não é a existência de petróleo fora dos Estados Unidos, mas a existência de empresas petrolíferas estatais. Apenas elas, por definição, podem aceitar, por decisão política, algo diferente de dólares como meio de pagamento. Empresas privadas, subordinadas à lógica financeira, não têm essa liberdade.

Mesmo após o fim do monopólio formal e a adoção de regimes de parceria, a Petrobras permanece estatal, controladora de reservas gigantescas e detentora de tecnologia própria. A situação se agrava quando, após o anúncio do pré-sal, a empresa realiza uma grande oferta de ações na bolsa de Nova York, constituindo o maior IPO da história até então. Esse movimento eleva a Petrobras ao sexto lugar entre as maiores petroleiras do mundo e a insere formalmente no sistema financeiro internacional.

Essa internacionalização fornece o pretexto jurídico para a atuação do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, sob o argumento de jurisdição sobre uma empresa listada em seu mercado de capitais. A partir daí, a Petrobras deixa de ser apenas um ativo estratégico brasileiro e passa a ser tratada como risco à arquitetura monetária global baseada no dólar.

A neutralização dessa ameaça não se dá por confronto direto, mas por desmonte institucional. Tudo começa com a operação Lava a Jato que, a um só tempo, paralisa a Petrobras, desmantela financeiramente as construtoras pesadas e arrasa, por falta de pedidos, a indústria naval. Um passo decisivo ocorre quando o Supremo Tribunal Federal consolida a jurisprudência segundo a qual a privatização de uma empresa estatal exige autorização do Congresso Nacional, mas a venda de suas subsidiárias não. Essa distinção permite o esvaziamento progressivo da Petrobras sem debate político.

Refinarias, sistemas de transporte, terminais, distribuidoras e, posteriormente, campos de produção passam a ser tratados como subsidiárias alienáveis. O que antes era uma empresa integrada, operando do poço ao posto, transforma-se em um conjunto fragmentado de ativos. Com isso, destrói-se a lógica histórica de formação de preços baseada em custos internos e planejamento de longo prazo.

Em seu lugar, impõe-se a política de preço equivalente, atrelada a referências internacionais. O petróleo extraído em território nacional passa a ser tratado como se fosse importado. O resultado é a explosão dos preços dos derivados, a inviabilização da logística interna, o encarecimento do transporte e a perda de competitividade da indústria brasileira.

Ao final desse processo, a Petrobras continua formalmente estatal, mas deixa de ser estratégica. Ela existe juridicamente, mas foi privada de sua capacidade de agir como instrumento de soberania energética, econômica e monetária. Sua internacionalização, que poderia ter sido fonte de fortalecimento geopolítico, converte-se no pretexto para sua neutralização.

O percurso histórico se fecha de forma coerente e amarga. Durante décadas, falar em petróleo no Brasil foi tratado como crime. Em seguida, o petróleo foi incorporado como projeto de soberania. No século vinte e um, ele é neutralizado não pela negação de sua existência, mas pela desmontagem deliberada da única estrutura capaz de transformá-lo em poder nacional.

Conclusão

Este texto está longe de ser alvo de conhecimento definitivo, mas pretende suscitar um questionamento acerca dos reais motivos por trás de atitutdes tão drásticas e destrutivas do que se convencionou chamar de Império do Caos. Deve ficar claro aos olhos do leitor que, perante ele, não há nada mais ameaçador do que a soberania alheia. Essa soberania começa pelo território físico, cujas riquezas o Império do Caos pretende que sejam suas; continua pela moeda de comércio internacional, que somente ele pode emitir; termina pelo espaço cibernético, que somente ele pode endereçar. Sem a hegemonia do dólar, as oitocentas bases espalhadas pelo mundo a fora passariam de projeção de poder a estorvo insuportável política e financeiramente. O que se viu em na madrugada de 3 de janeiro não passa da frustração de um menino que, ao ver que vai perder o jogo, quebra o tabuleiro.



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