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Vorcaro: a expressão maior do crime organizado


Orcrim ganha corpo a partir da combinação de duas vertentes ligadas à lavagem de dinheiro: Igrejas e os esquemas de FIDCs e outros

Publicado: 18/06/2026

Do GGN

À luz das últimas revelações sobre o esquema Daniel Vorcaro, é importante uma distinção inicial. Não se trata de um banqueiro que, a partir de determinado momento, recorreu aos recursos do crime organizado. O esquema Vorcaro é a expressão mais acabada do crime organizado. Ganha expressão a partir da combinação de duas vertentes ligadas à lavagem de dinheiro: Igrejas e os esquemas de FIDCs e outros, flexibilizado por Roberto Campos Neto.

Uma análise do que saiu divulgado até agora, mostra todos os ingredientes de uma organização criminosa:

1. A estrutura ordenada e a divisão de tarefas — a “espinha dorsal” da tipificação

É aqui que reside o núcleo da imputação. Na decisão que deflagrou a 3ª fase, em 4 de março de 2026, o ministro André Mendonça acolheu a leitura da PF de que os investigados atuavam de forma estruturada e com divisão de tarefas, característica típica de organizações criminosas. A PF desenhou o esquema em quatro núcleos funcionais:
  • Núcleo financeiro — responsável pela estruturação das fraudes contra o sistema financeiro.
  • Núcleo de corrupção institucional — voltado à cooptação de servidores públicos do Banco Central e na própria Polícia Federal.
  • Núcleo de ocultação patrimonial e lavagem de dinheiro — com utilização de empresas interpostas.
  • Núcleo de intimidação e obstrução de Justiça — responsável pelo monitoramento ilegal de adversários, jornalistas e autoridades.

Essa repartição é juridicamente decisiva: ela é o que distingue, no enquadramento jurídico, uma organização criminosa de meros crimes financeiros isolados.

2. A hierarquia e os papéis individualizados (o requisito dos “quatro ou mais”)

  • Fabiano Zettel (cunhado de Vorcaro, pastor da Lagoinha) — apontado como operador financeiro, responsável por pagamentos e transferências.
  • Luiz Phillipi Mourão (“Felipe Mourão”, apelidado de “Sicário”) — coordenaria ações de monitoramento e intimidação de adversários; descrito como braço operacional, ele supostamente atentou contra a própria vida na cela e morreu dois dias depois.
  • Marilson Roseno — policial federal aposentado integrante do núcleo de intimidação.
  • Henrique Vorcaro (pai) — preso na 6ª fase; segundo a PF, participava do gerenciamento de “A Turma”, grupo apontado como milícia pessoal do banqueiro.

3. A permanência e estabilidade — “A Turma” / “The Crew”

A jurisprudência exige estabilidade, não associação eventual. O elemento mais forte nesse sentido é o braço de inteligência paralela. Segundo Mendonça, Vorcaro integrava um grupo que buscava obter informações sigilosas, monitorar adversários e executar ações de intimidação para proteger os interesses do núcleo da organização criminosa. A existência de uma estrutura permanente de coerção, com policiais (ativos e aposentados) cooptados, é o que converte um banco fraudulento em organização criminosa estável.

Não é propina avulsa; é captura do regulador. A apuração identificou que o ex-diretor de fiscalização Paulo Sérgio de Souza e o ex-chefe de departamento de supervisão bancária, Bellini Santana, mantinham contato recorrente com Vorcaro e forneciam orientações estratégicas sobre a atuação do Banco Central em processos administrativos envolvendo o Master, inclusive sugerindo abordagens e argumentos a serem usados em reuniões com dirigentes do BC. Soma-se a isso o vetor político: a imprensa documentou que Vorcaro e o Master buscaram aproximar-se de autoridades nos três níveis de governo e no Judiciário, oferecendo viagens em jatos, festas, apoio a campanhas e contratos — o que, no esquema, cumpre função de blindagem decisória.

5. Os crimes-pressuposto (pena máxima > 4 anos)

6. A transnacionalidade (requisito alternativo, mas presente)

Mesmo que a estrutura interna não bastasse, o caráter transnacional, sozinho, tipificaria. Os marcadores: a fuga interrompida — Vorcaro foi preso em flagrante em 17 de novembro, em Guarulhos, tentando embarcar num jato para Dubai; a prisão de Victor Lima Sedlmaier, capturado em Dubai em ação conjunta de PF, Interpol e polícia local; e a tentativa de venda dos ativos do Master a investidores dos Emirados Árabes.

A dimensão patrimonial reforça a finalidade lucrativa do tipo. Foram decretadas 21 prisões temporárias ou preventivas, 116 mandados de busca e apreensão e bloqueio/sequestro de bens próximos a R$ 27,71 bilhões, e a estimativa de rombo ao FGC, segundo investigadores, supera R$ 50 bilhões.

Dossiê — A família Vorcaro antes (e à margem) do Master

1. As três gerações

1.1. Serafim e a guinada religiosa

O ponto de inflexão da família é o avô, Serafim Vorcaro, imigrante italiano de origem católica que se converteu e se tornou pastor protestante. Foi ele quem afastou a família do catolicismo e a direcionou ao protestantismo, inserindo o filho Henrique na Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte — a instituição que se tornaria o eixo de inserção social de todo o clã. A Lagoinha é a chave da rede de relacionamentos que precede qualquer projeção nacional da família.

Henrique Moura Vorcaro, o pai, começou como corretor de imóveis. Há cerca de 35 anos fundou as duas empresas que são a semente de tudo: Vorcaro Imóveis e Centro Sul Empreendimentos, voltadas à incorporação e à construção civil, com participação em grandes empreendimentos da capital mineira.

Essa base imobiliária se converteu, com o tempo, na holding Multipar (Multipar Empreendimentos e Participações S.A., sediada em Nova Lima/MG). O dado relevante é a diversificação: ao longo das décadas o grupo passou a se apresentar como atuante em mineração, hotelaria, turismo, alimentação, educação, tecnologia, gestão de benefícios e tratamento de resíduos — e, em algumas descrições, em locação de veículos, serviços funerários, engenharia, energia, agronegócio e indústria química. Henrique chegou a figurar como sócio de dezenas de empresas, tendo como principal sócia a filha Natália Bueno Vorcaro Zettel.

Sinalização de investigação. Na Operação Compliance Zero, a Multipar passou a ser citada como veículo de movimentações suspeitas: relatório do Coaf apontou movimentação superior a R$ 1 bilhão entre 2020 e 2025 em contas ligadas ao núcleo de Daniel Vorcaro, com indício, para os investigadores, de ocultação patrimonial e lavagem. Henrique foi preso na 6ª fase (14/05/2026), apontado pela PF como operador financeiro do esquema. A defesa nega e sustenta a licitude das operações.

1.3. O eixo religioso como capital social

1.4. Daniel: do imobiliário à TV cristã, e só então ao banco

Daniel Bueno Vorcaro nasceu em Belo Horizonte em 6 de outubro de 1983. Estudou no colégio de elite Fundação Torino e formou-se em economia pelo IBMEC de BH. A cronologia até o banco:

 
  • 2004 — entra nas empresas imobiliárias da família; viria a ser CEO do Grupo Multipar, com foco em incorporação e crédito imobiliário com garantia (home equity).
  • 2008–2009 — apresenta o programa musical “Supersônica” na Rede Super, a emissora cristã ligada à Lagoinha.
  • 2016 — primeiro movimento no sistema financeiro: aproxima-se de Paul Saul Sabbá, controlador do Banco Máxima, instituição mineira fragilizada por rombo e já inabilitada pelo Banco Central. Detalhe que interessa: embora Daniel afirmasse ter conhecido Sabbá só naquele ano, transações entre empresas da família e o Máxima já eram frequentes.
  • 2017–2019 — fecha o controle do Máxima com promessa de aporte superior a R$ 75 milhões (R$ 25 mi iniciais); a troca de controle só foi oficializada pelo BC em outubro de 2019.
  • 2021 — rebatiza o Máxima como Banco Master e inicia o ciclo de aquisições agressivas (Will Bank, seguradora Kovr) e a captação via CDBs com remuneração acima do mercado.

2. O braço de mineração — Itaminas (seção autônoma)

A “mineração” que aparece na autodescrição da Multipar é genérica e não tem ativo nomeado e antigo amarrado a ela. O braço de mineração concreto e documentado não é da holding do pai — é de Daniel, é mais recente que o próprio Master, e é justamente por isso que se torna o capítulo mais revelador deste dossiê. O ativo tem nome: Itaminas, mineradora de ferro na região de Sarzedo/Brumadinho (MG).

2.1. O ativo e a lógica de status

2.2. O timing — o achado central

O elemento decisivo é a data da saída. Vorcaro vendeu sua participação na Itaminas por quase R$ 700 milhões (o Brasil Mineral noticiou cifra próxima de US$ 300 milhões, com pagamento antecipado) menos de quinze dias antes de a fraude do Master vir à tona, repassando a fatia às famílias Gontijo e Géo (grupos AVG e Agéo). Segundo a manchete do Valor Econômico (11/11/2025) que embasa a reportagem, o destino dos recursos era um aporte no próprio Banco Master.

Compra (início 2024) → exploração direta da mina de Jangada (ago/2025) → venda relâmpago (≈11/11/2025) → aporte no Master → prisão e liquidação (17–18/11/2025).

Traduzido para a linha de investigação: o ativo de mineração funcionou, na prática, como reservatório de liquidez acionado para tapar o rombo do banco às vésperas da liquidação. Não foi um negócio produtivo autônomo — foi um ativo financeiro a serviço da engenharia do Master, e seu desinvestimento se encaixa no padrão que a PF descreve no núcleo de ocultação patrimonial.

A Itaminas carrega um passivo que antecede Daniel Vorcaro e que serve para contextualizar o ativo — sem imputá-lo a ele. A mineradora foi fundada e administrada por décadas por Bernardo de Mello Paz, o criador do Museu Inhotim, em Brumadinho. Reportagem de Alex Cuadros na Bloomberg (2018) associou a fortuna de Paz a crimes ambientais, lavagem de dinheiro, evasão fiscal, trabalho infantil, grilagem e trabalho análogo à escravidão; Paz foi condenado em 2017 a nove anos e três meses por lavagem de dinheiro. A Itaminas retomou atividades em 2020 comprando minério de ferro de uma subsidiária da Vale.

2.4. O fio regulatório-ambiental — porta giratória mineral em MG

É o mesmo padrão de porta giratória entre regulador e regulado que estrutura a investigação do caso Master no Banco Central — aqui transposto para o licenciamento ambiental mineral.

3. Os fios que importam para a investigação

  1. A base imobiliária como matriz patrimonial. O home equity e a incorporação foram a escola e o lastro inicial — e o setor segue presente nos ativos da fase Master (Fasano Itaim, Botanique, imóveis de Trancoso).
  2. A holding diversificada como veículo. A lógica Multipar — espalhar-se por dezenas de setores e empresas — espelha a arquitetura de empresas interpostas que a PF descreve no núcleo de ocultação.
  3. A rede evangélica (Lagoinha) como capital social. Não é coincidência que o operador financeiro do esquema seja um pastor da própria igreja, casado com a irmã de Daniel.
  4. A mineração como caixa de emergência. A Itaminas, comprada em 2024 e liquidada em novembro de 2025 para aporte no banco, é a prova mais nítida de um ativo “produtivo” subordinado à engenharia financeira do Master — e ainda conecta o caso à teia regulatória mineral de Minas (FEAM, Operação Rejeito, mina de Jangada).


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