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SINDICATO DOS SERVIDORES PÚBLICOS FEDERAIS NO ESTADO DE PERNAMBUCO
(81) 3131.6350 - sindsep@sindsep-pe.com.br
Publicado: 04/02/2026
Do GGN
Existe uma percepção simplista de que casos como o da Master envolvem apenas oportunistas que se aproveitaram de brechas regulatórias. A realidade é mais complexa e preocupante.
Não se trata de disputa partidária simples ou de defesa corporativa do Centrão. O que está em jogo é mais profundo.
A disputa real
Duas visões de país estão em confronto:
Modelo 1: Instituições reguladas e funcionais, segurança jurídica, respeito aos direitos fundamentais, combate efetivo ao crime organizado.
Modelo 2: Desregulação radical que beneficia desde milícias cariocas e o PCC paulista até setores do mercado financeiro dispostos a operar em zonas cinzentas. Um país loteado entre grupos de interesse, onde PMs da reserva dão ordem unida em escolas enquanto operadores tradicionais miram as grandes estatais.
Esta é a encruzilhada em que nos encontramos. Vejamos como chegamos aqui.
Peça 1: A mecânica do mercado financeirizado
Todo ciclo financeiro moderno passa por fases previsíveis:
Fase 1 – Excesso de liquidez: Cria-se uma economia circular em que a riqueza gerada no mercado financeiro precisa ser continuamente reciclada no próprio mercado. A Selic atrai mais dólares para o país, aquecendo ainda mais o mercado.
Fase 2 – Busca obsessiva por rentabilidade: A rentabilidade depende da diferença entre preço de compra e venda. Mesmo em mercados em alta, cada rodada exige valorização adicional.
Fase 3 – Inflação de ativos: Para sustentar o ciclo, há valorização excessiva de imóveis, recebíveis, precatórios, créditos judiciais, direitos futuros e tokens.
Fase 4 – Escassez de lastro: Esgotam-se os ativos de qualidade para originar novas operações. É quando o sistema se torna perigoso.
O cenário atual
Chegamos a uma situação instável, caracterizada por:
Esse ambiente é ideal para o capital criminoso, que não precisa ser eficiente — apenas entrar no fluxo.
Peça 2: As vantagens competitivas do crime organizado
O crime organizado prospera neste ambiente por três razões estruturais:
1. Capital paciente e opaco
2. Oferta sob medida de ativos
Fornece exatamente o que o mercado sedento por papel precisa:
Quando o mercado precisa de papel, quem fabrica papel controla o jogo.
3. Assimetria regulatória
A regulação brasileira criou brechas sistêmicas:
Resultado: o crime sempre caminha à frente da regulação.
Peça 3: Os pontos de infiltração
1. Mercado de crédito estruturado
Instrumentos vulneráveis:
Vulnerabilidades:
2. Mercado imobiliário financeiro
Instrumentos vulneráveis:
Característica: instrumentos clássicos de lavagem de dinheiro.
3. Bancos médios e plataformas de distribuição
Perfil de risco:
Resultado: campo fértil para associação criminosa.
4. Fintechs e criptoestruturas
Vulnerabilidades estruturais:
Peça 4: A desregulação como facilitadora
A desregulação raramente é explícita. Ela se manifesta em discursos aparentemente técnicos:
“Confie: o mercado se autorregula.”
Na prática, isso significa:
A captura política
O mais grave: quando a participação criminosa se torna relevante economicamente, ela ganha poder político — através do mercado, da mídia e do Centrão.
Compare a cobertura discreta dada às Operações Poyais (fraudes com criptoativos), Colossus e Carbono e campanha persistente e coordenada contra ministros do Supremo Tribunal Federal, valendo-se das brechas abertas pela ausência de um código de conduta.
Não se ficou apenas na denúncia – necessária – contra os Ministros, mas em uma campanha com o tom moralista da Lava Jato, com adesão de veículos de várias procedências.
A desproporção revela onde estão os interesses reais.
O que se vive não é um caso isolado de corrupção ou oportunismo. É a captura gradual de segmentos do mercado financeiro por capital de origem criminosa, facilitada por desregulação intencional e protegida por poder político.
Reconhecer esse cenário é o primeiro passo para enfrentá-lo.